Gato e borboletas

Gato e borboletas

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Feliz 2012 ...!!!

O dia tá quase acabando
Pra 2011, apenas dois
Dizem que ano que vem
é o fim do Mundo
Espero que desse mundo:

Onde amor não tem vez
é démodé

Onde olhar pra uma criança na rua
magrinha
maltrapilha
não faz perder o rumo nem o prumo
a vida segue
sem culpas
sem neuras
sem responsabilidades

Onde discursos inflamados
têm vez e hora
e nunca passam de palavras
que outubro leva

Onde seca e inundação
são resolvidas
com doações que nunca chegam
(na próxima estação tem mais)

Onde corrupção
é apenas manchete de jornal
e não um mal a ser curado

Onde Deus é leiloado
e Senhor de preconceito e segregação

Que seja o fim.

E o começo
de toda a liberdade
que nos permitirá
sermos imagem e semelhança
do Deus
que em nós habita
e que de nós só espera
a FÉ

Feliz 2012 ..!!!

domingo, 25 de dezembro de 2011

Fim do Dia Tão Esperado (que acabe)

Aprendi muito nesses longos anos doídos.
Valeram à pena.
Aprendi a não jogar purpurina naquilo que perdeu o brilho.
Nem avivar cores desbotadas.
Nem tentar enxergá-las no que já se tornou preto e branco.
Procurar o sol em plena tempestade é esforço em vão.
A tempestade vai passar, é só esperar.
Querer mergulhar no mar revolto não me parece uma ideia sensata.
Existem praias mais calmas, vamos até elas.
Acreditar em tudo que ouvimos em noite natalina
é ingenuidade que não nos cabe mais.
Melhor olhar os outros como realmente são.
Ter plena consciência dos fatos.
Não se deixar levar por lágrimas ensaiadas.
Cada gota é programada para tal ocasião. 
Ainda bem que o dia está acabando.
Quero a sinceridade sobrevivente.
Essa que não tem data.
Que não precisa de ensaio.
Que chega num sorriso sem embrulhos.
Eu sei em que olhos encontrá-la.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Estranha Solidão

         
          Essas redes sociais só me deixam claro o quanto vivo só. Tenho hoje registrado mais de 50 pessoas, que pra mim é como o Maracanã em dia de Fla x Flu.
          Se quiser conversar com alguém agora, não há. Não há ninguém. Pois esse enorme número não condiz com o que vivo, com o que tenho. Uma amiga tá no Rio, que pra mim é muito distante, e temos ritmos bem diferentes. Outra é casada, tem seu negócio que a ocupa principalmente nos fins de semana. E a que está mais próxima é cheia de amigos, colegas, tem sempre com quem sair.
          Eu nunca saio. Eu gosto de ficar só, gosto de ouvir o silêncio. Me irrito quando o telefone toca, e ele raramente toca, num momento em que estou entregue às minhas leituras. Mas tem uns dias, são poucos, devo reconhecer, uns três por mês, talvez, que me sinto tão sozinha. Eu sei que isso passa. E logo volto a contemplar o silêncio da minha existência.
          Há muito tempo não me sinto cansada de viver. Mas hoje tá pesando. Aquela velha vontade de morrer por uns instantes, talvez semanas. Hoje queria morrer e só ressuscitar depois do carnaval. Depois dessa devastação chamada turistas passar. A cidade fica cheia, lotada. Gente falando muito alto, gente que bebe o dia inteiro, músicas da pior espécie e tocando bem alto, somos obrigados a dividir o fraco gosto.
          Fiz das palavras minhas amigas. Essas estão sempre aqui, sempre que preciso. Nunca me faltam. Essa talvez seja minha salvação. Nelas eu morro e vivo quando necessito. Me desespero sem perder o prumo. Corro desesperada e não me perco nunca. Grito de dor e ela se esvai.
         Me contradigo e ninguém reclama. Comecei falando de estar me sentindo só e logo depois reclamo do mundo de gente que está por invadir a cidade onde moro. Mas ... as palavras me entendem, não reclamam, me deixam desabafar sempre que preciso. Cuidam de mim não permitindo que me sufoque em possíveis contrapontos, momentâneos. Eu sigo uma reta, tortuosa ... rs, mas uma reta.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Convite da Natureza

Não vou correr da chuva
Os pingos caem doces e suaves
refrescando meu coração
deixando a alma leve
As flores se abrem
frente aos meus olhos
O colorido me conta novidades
Segredos
para os corações amargos
O arco-íris 
leque varrendo tristezas
A grama úmida
se oferece em cama macia
Descanso para os que
cansados de tanta dor
se rendem às novas cores
Sono embalado
pelo canto dos pássaros
que em sutil revoada
dizem baixinho
que também podemos voar

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A cor que gosto

Ébano que me persegue
Fui camuflada nessa pele branca
nessa mecha que escorre a testa
Mas o batuque me descobre
faz a ginga aparecer
Saia que me abraça
num redemoinho de desejos
Senzala de reis destronados
que nunca perdem a majestade

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Natal às Avessas

Esse ano
todo esse pisca-pisca
não está fazendo sentido
Só consegui me pegar indagando
o quanto esse desperdício
de energia
significa
Não vi sentido
não consegui achar bonito
Olhar aquele senhor de barba
me deixou irritada
indignada
Não por ele
mas pelo o que o fizeram
representar
Não quero ficar acordada
esperando
Esperando o quê?
Procuro trazer comigo
nos 365 dias do ano
um espírito natalino
Não quero
mais uma vez
compactuar com essa noite
que
nesse momento
me parece tão ilógica
Quero fazer coisas boas
quero ser boa
sempre que conseguir
E pra isso
preciso das 365 noites
quando
antes de dormir
analiso meu dia
tudo que pode continuar
tudo que precisa ser exorcizado
tudo que ainda falta

Solidão

Não entendem
Mas é uma necessidade latente
Preciso
Preciso em muitos momentos
estar só com minha respiração
Um pingo de chuva incomoda
Mas assim que exorcizo
toda essa irritação
a chuva se faz música
Ouvi-la sem a menor interrupção
é o mais inebriante concerto
Peço silêncio aos meus pensamentos
Que eles se emudeçam por alguns instantes
Estão irritantes por demais
Eu estou irritada
Deixem-me a sós com minha solidão
Ela é o abraço
onde me perco
sem medos
sem culpas
sem olhos
apneia que não termina

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Coração Vazio

"Cabeça vazia
oficina do diabo."
E: coração vazio?
Oficina de quem?
Acho que
de inúmeras possibilidades
perdidas na dor
da última paixão.
Então ...
que nos apaixonemos!
Sempre!
Não há
outra solução.

Demônios do Poeta

Em todo poeta
habita um demônio
... ou vários
Alguns exorcizamos
nas infindáveis palavras
Outros
com elas se fortalecem
A esses
só nos resta
a rendição

A Goiabeira

Seu tronco se retorce
Como num abraço
de si
Sem precisar de mais nada
de mais ninguém
Esse abraço se desfaz num redemoinho
onde larga os galhos
se abrindo aos céus
Respirando profundamente ...
Rendendo-se ao peso
das frutas
que começam a surgir
De tudo ao redor
só por você
minhas lágrimas serão derramadas

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Teu Silêncio

... e tudo virou silêncio
Um silêncio gritante
que rasga meu peito
Um silêncio
que
por um instante
me deixa perdida
onde tudo é breu
Quero gritar
mas sei que não adianta
Teu silêncio é surdo
e ensurdecedor
Minh'alma de joelhos
clama por uma palavra
Me calo
Mas tua voz
são meus ouvidos
Tua música não cessa
Sempre a me inundar
E você não diz nada

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Peteleco de Deus - novembro/2008


Tão dona de si. Tão certa de quem é. Um ímpeto rasgante  deixando claro a rebeldia, a ausência de pudor e, se preciso, a de moral até.

E ... de repente, um fio de arrependimento. E uma raiva por Deus não lhe contar o dia em que a história se completa e estamos prontos para a história maior.

Uma vergonha envolve cada célula. E só existe uma pergunta: " Por que não me guardei ...???"

Deus, com toda a sua paciência, mesmo quando não resiste e nos dá um peteleco na orelha, passa o braço por nossos ombros e, numa conversa de amigos, nos explica:

“ Ninguém se guarda. Não os fiz pra isso. A vida ... a vida de verdade, é feita de ímpetos, de atos descomedidos que lhes mostram a dose certa.

O escuro... pra delícia que é sentir o sol nascer.
O deserto... pra que descubram o verdadeiro sabor da água.
A dor... pra que deleitem sua ausência.
O medo... temperando o impulso.

Ah: mas um pedaço ... resolvi que ficaria guardado. Mesmo quando pensam que tudo foi exposto. Mesmo quando se fazem incenso, que invade e se mostra.

A verdadeira essência, essa sempre está guardada. Pois não cabe a vocês mostrá-la. Não é uma escolha.

A essência só é enxergada pelos olhos certos. Par de olhos que um dia chega trazendo a certeza.”

E com um beijo na testa, Deus nos sorri.

Minha Natureza - novembro/2008


Muitas vezes...

Na verdade, todas as vezes que amei, amei por ser da minha natureza. E quem sente essa dilacerante necessidade é como o crente que ainda não entendeu Deus e precisa ajoelhar-se diante da imagem para acreditar na própria fé.

Enquanto minha alma rodopia inquieta esbarro em possíveis pares e ignoro os pisões. Chego a pensar, num total absurdo, que esses fazem parte da coreografia.

De repente, os pés reclamam e começo a entender que posso dançar sozinha. Os primeiros passos são desconcertados e desconcertantes. Mas o tempo, eterno aliado, ajuda-me a encontrar o ritmo.

Já não preciso ficar de joelhos, pois descubro que a música é composta por Deus e os pares jamais se desencontram. E sim ... encontram-se no melhor momento. Um momento que nunca sabemos, e tentar adivinhá-lo é jogar-nos à dor, que não faz cerimônia: é faca afiada.

Sem deixar que uma gota de incredulidade inunde minha alma, sempre propensa às enxurradas, apenas acredito que o momento existe e é escrito com linda e doce caligrafia.

E continuando meus rodopios com a vaga certeza que: apenas Deus toca e eu danço.

Percebo tuas mãos e ... meus pés flutuam.

Olho.

E não vejo onde começas e termino.

Chamado da Lua - março/2009

Olho para o céu
estás em meus pensamentos
A lua é linda
Um largo sorriso abençoando quem sabe amar
O meu, incontido
abre-se numa espécie de cumprimento
Eu a saúdo e a agradeço
Penso no que me falaste sobre aqueles
que só conhecem a noite por perceberem o escuro
e nada mais
Para os quais a noite é só o fim do dia
e nunca tempo de sonhar
A chuva só molha atrapalhando a praia
e nunca lava a alma
O vento só enche os olhos de areia
Olhos que já nada enxergavam
E nunca traz o perfume de quem se ama
Ouvidos perdidos no ruído chamado de música
e surdos para o chamado da Lua
Música cantada baixinho
embalando sonhos que me deixo sonhar

Sensação


Me inundo em tuas palavras
Tudo se encharca
Sentimentos tectônicos
à procura do ajuste
O corpo treme
A mão acariciando os lábios
se avalancha
Lago de água quente
esperando que mergulhes

sábado, 26 de novembro de 2011

Encontrando Ouro - novembro/2008


         ... mas ouro não se encontra remexendo brita. São dias árduos que se ofuscam com o brilho do metal. E tudo fica para trás. Tão distante que chegamos a duvidar que a dor existiu. É só a satisfação. E o corpo que doía em cada músculo contraído se transforma em um único e profundo suspiro. E isso é maior que tudo.

         Não dá pra ficar com o pé atrás. Pois é preciso fincar, os dois, ao chão. Pernas levemente separadas, braços abertos, a cabeça delicadamente jogada e um sorriso para receber a brisa. Aquela posição de quem se entrega: a vida que me tome e me leve ... O medo existe, claro. Porém, e aquele deleitável arrepio que percorre a espinha ...?

         Será que as pessoas sabem o que é, realmente, fazer amor ? Simplesmente se espreguiçar ao acordar e esbarrar o corpo no corpo de quem ainda dorme cheio de paz no semblante. Sentar-se mais afastado e perder-se olhando, sem nenhum pensamento, apenas a alma vibrando de alegria. Sentir uma saudade com total ausência de dor, porque você é dele e ele é seu, e isso nunca precisou ser dito.

Nossa Árvore

Descobri onde fica nossa árvore
Está longe
Savana em que o ocaso funde terra e céu
Nossos corpos dourados
se confundem com o cheiro da terra
O suor escorre
e nos perdemos nesse mar
A lua chega
prateando seres exaustos
Mãos levemente entrelaçadas
sem forças
Bocas entreabertas num preguiçoso sorriso
E o coração lutando para desacelerar

Beijo na Testa

Talvez a sublimação da vida
Seja quando
Nos deitamos em grama ainda úmida
O sol apenas nos acariciando
Brisa soprando doce
E Deus se achega
Passa a mão em nossa cabeça
Nos beija na testa e diz:
"Continue seguindo, o caminho é esse"

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Bola Rolando

A bola rola
O menino corre
Chega outro
E mais outro
A terra batida levanta poeira
Cortina velando inocência
O gol é feito
O sorriso rasga
O mundo gira
O tempo não para

Meu Caminho

Já sei tanto de mim
Sei que desconheço dois tantos
Pra cada uma resposta
Abre-se o leque das dez perguntas
Antes da próxima empreitada
Na varanda me refestelo
Espaldar que me aconchega
Uso o leque pra fazer ventania
Meu rosto se refresca
De olhos fechados abro meu coração
Não tenho medo das perguntas
Aleia feita da busca de respostas
Muros são transpostos
Arbustos são regados
E tudo se multiplica
Paralelepípedos tecendo meu caminho
Percorro-o dia após dia
Passo após passo
Sigo
Firme
Sem pressa
A chegada não existe

Abraço de Uma Vida

Um meio círculo cheio de espinhos
Mais ou menos quinze centímetros de diâmetro
Ali ele estava por quase trinta anos
Sempre do mesmo jeito
Algumas gotas d'água por semana
Só isso
mais nada
Um dia o pedúnculo começou a crescer
Dia após dia o observamos
Quase duas semanas
Aquilo a nos intrigar
Quase vinte centímetros
E em sua ponta
Barriga vergada de primeira gestação
Durante a madrugada
Pudemos ver seu despertar
Os olhos pesando de sono
Por mais de dez horas
Ela fez seu espetáculo
Sombreou todo o cacto
Num abraço de agradecimento
Enorme flor
Dezenas de pétalas
Longas, finas, aveludadas
Brancas
Desfazendo-se em imperceptível lilás
Os deixamos a sós
Trinta minutos
Foi o que durou aquele abraço
Trinta anos ele a esperou
Trinta minutos ela o abraçou
Era o tempo que tinha
Foi o tempo que tiveram
Passado uns dias
Ele se juntou a ela
O abraço agora era eterno

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Primeiro dia de aula

Não importa se 4 ou 40
Primeiro dia de aula é friozinho na barriga
É roupa escolhida a dedo
deixada esticada desde a véspera
É estojo com lápis novos
Caderno de capa colorida
(tem um pessoal aqui com note, net)
Não preciso dizer que prefiro o papel
Passou um Professor
Figura distinta, cabelos grisalhos
Ai ... ai ... ai ...
Vim aqui fazer Direito
e já estou me entortando

Vô Doce

          O vô Tininho fazia um doce de leite como nunca comi. Eu e todos que tiveram a sorte de provar divina iguaria.
          Era uma festa quando ouvíamos a buzina da Variant verde avisando que o Vô Doce havia chegado. Não poderia ter escolhido melhor apelido pr'aquele Senhor. Com o tempo fui percebendo que ele fazia jus à alcunha não só por conta do produto que vendia mas, meu avô era, realmente , doce.
          O doce de leite era feito naqueles belíssimos tachos de cobre. Tinha em tablete e  cremoso, que vinha num copinho plástico (tipo esses de cafezinho) com uma pazinha de madeira.
          A parada na casa da vó Rachel era certa (foi onde morei até meus sete anos). Ali ele nos abastecia com sua delícia, momento tão esperado por mim, pelo Dô e pelo Di.
          Também momento em que, sentados na cozinha, aquelas adoráveis pessoas - vô Tininho, vô Mazinho e vó Rachel - colocavam a conversa em dia. Eram muito amigos, se conheciam desde antes dos meus pais pensarem em se casar.
          Enquanto os velhos iniciavam o papo, a vó punha água pra ferver pra fazer um café fresquinho que, com certeza, seria acompanhado com uma deliciosa broa recém saída do forno.
          Aqueles dois tinham uma elegância que pouco vi e pouco vejo nos homens de hoje. Ambos morenos, ombros largos, postura impecável e dois ponposos bigodes ostentados em belíssimos rostos de atores de cinema.
          A vó também era muito bonita. Sempre sorridente não deixava nada a dever pr'aquelas Divas hollywoodianas.
          O encontro dos três era feito de risos, sorrisos, gargalhadas e muita voz alta.
          Com eles aprendi a ouvir fantásticas histórias.
          Com eles aprendi que amizade é algo muito valioso.
          Que envelhecer é gratificante quando os olhinhos dos netos brilham dizendo seus nomes.
          E que a morte nunca existe pr'aqueles que deixam adoráveis lembranças que adornam o coração de muita gente. Pois sempre havia alguém que (com muita cara de pau - eu sempre fui ciumenta) me pedia: "posso chamar seu avô de vô também?
          Sempre tive que dividir essas criaturas especiais com toda uma legião de amigos, pois eles eram adoráveis e irresistíveis.
          E ... não é qualquer um que tem um Vô Doce.  

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Deus em Mim

Alguns tentaram me mostrar
onde Ele estava
Falaram com muita propriedade
e certeza
Não vi tudo isso em suas atitudes
Não acreditei
Tentaram provar por A + B
Não me mostraram a soma dessa força
em seus próprios atos
Tantos lugares
Tantas maneiras
Tanta coisa escrita
Um dia precisei ficar quietinha
Foram longos dias de total silêncio
Primeiro parecendo a morte
Depois parecendo um nada
E ... de repente
Era Ele
Sem som
imagens
palavras
Sem livros
terços
ou velas
Era apenas meu coração
batendo num compasso
que até então
eu desconhecera

domingo, 13 de novembro de 2011

Cão Fiel

Não sei o que pode acontecer
Não sei se, um dia, vai acontecer
Só sei que sou poeta
E nada como transformar dor em palavras
Saudades
Perguntas
Respostas
Não teria graça saber o futuro
Essa completa incerteza é o que nutre a pena
Talvez iludir-se seja o que move o poeta
Talvez ilusão seja meu farto alimento
A dor sempre existe
E o sofrimento se foi
Esgotei-o nas últimas palavras
Desse sentimento que, agora, só abraço
Sigo aprendendo amar-te à distância
Mas como o cão fiel
Sempre à espera do teu sinal 

sábado, 12 de novembro de 2011

Peça-me

Peça-me qualquer coisa
Peça-me pra ficar quietinha
mas me deixe tocá-lo
mesmo na imensidão
Peça-me pra rir baixinho
mas olhe com ternura
o sorriso que é só seu
Peça-me que largue a caneta
e farei poesia apenas com os olhos
Ate minhas mãos
enterre meus pés no concreto
mas deixe meu coração voar
Pois o bater do seu
cicatriz que já toquei
são asas que me colocam alto
nesse voo que não sei parar

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Amor sem começo

Passos que não encontram o chão
de barro que nunca é moldado
Lágrimas que secam sem vento
matando a sede de água salgada
Juras eternas que cessam
a verdade de um único instante
Rodopio no mesmo lugar
fazendo cair quem sempre entontece
Dor que só dura um assopro
de hálito fresco de hortelã
Sentimento que pinga do éter
sem nunca o chão encostar

Viagem

Crisálida
sem borboleta
Deserto
de miragens verdadeiras
Ilusão
que nem a distância mantém
Palavras
perdidas sem o papel
Horas
que nunca terminam
mas é chegado o fim
Olhos
que se antecipam ao coração
Sentimentos
que a boca emudece
Mistério
que bem conhecemos

sábado, 5 de novembro de 2011

2ª Carta aos Leitores

          Ah! ... essas estatísticas. Penso que elas dizem o que dizem ou pra zombar de mim ou pra que, contente com tudo que me é mostrado, continue a escrever.
          Outro dia fiquei pensando se não tenho alguma tia avó que mora na Alemanha ou, várias tias avós que moram não só na Alemanha como na Rússia e na Letônia (por aqui chamada de Latvia). Até pensei, cá com minha vã ignorância: "Será que agora colocam o nome de quem nos acessa?!"
          Muito prazer Latvia, desculpe-me por só te conhecer como Letônia.
          Eu amo a internet! Amo a Microsoft! Amo a Apple! Amo qualquer coisa ligada a esse mundo virtual! ... Calma ... Sem exageros, só passei a me render ao que há de bom nisso tudo. Eu gosto de escrever, tô até acreditando que faço isso direitinho, e ... parece que andam gostando do que escrevo.
          Por favor, alguém da África por aí?! Assim poderei dizer que já percorri o mundo todo.
          Posso parecer criança quando ganha o brinquedo tão esperado, mas é assim mesmo que me sinto. Muito feliz pelo reconhecimento de todos. De repente, uma cosmopolita, e mal atravessei as fronteiras do estado em que moro. É uma sensação maravilhosa que devo a todos vocês que têm me acompanhado quase que diariamente. 
          Amo as estatísticas! Amo minhas tias avós (que são muitas e, se morassem do outro lado do mundo e acessassem a internet, estariam lendo meus escritos, com certeza)! Amo vocês (que parecem tão distantes mas, sinto-me, às vezes, como se tomássemos um delicioso chá juntinhos)!

Sintam-se beijados ... Virginia

Sultão e Miúda

          Se ela estivesse aqui e soubesse falar, com certeza, me diria: "Coloca meu nome primeiro."
          Um dia ela chegou, pele e osso. Mais ossos que pele, mais pele que pêlos e um par de orelhas que não tinham fim. O nome escolhido não poderia ser outro - Miúda. Na verdade: Miúda Miudíssima Miudésima. Algo me dizia que ela era digna de um sobrenome. Havia um quê de nobreza por trás daquele aspecto, que no momento, era apenas digno de dó.
          Ele já tinha seis anos, um rottweiler dulcíssimo como nunca vi igual, assim era Sultão.
          Cheguei com aquela coisa estranha, mostrei-a pro simpático cão e lhe expliquei que ela passaria a fazer parte da família. Olhou-a com espanto, mais por seu aspecto do que pelo fato de ser uma gata. Era um Gremlin muito bem alimentado após a meia-noite.
          Dali seguiram-se dias de muitos cuidados e remédios. O veterinário chegou a desenganá-la.
          Mas Miuda era teimosa, mostrou isso desde o início. Foi tendo uma recuperação fantástica e, logo virou a dona do quintal. Deixava claro pra Sultão que ali ela mandava. Ele, extremamente educado, fazia todas as vontades daquele ser que, de Gremlin estava cada vez mais parecido com o Garfield. Tanto no tamanho quanto na preguiça e prepotência.
           Seu pelo era lindo, muito macio, rajado de nuanças de cinza com um leve amarelado, fora a enorme barriga de pêlos branquinhos, onde ninguém poderia pensar em colocar a mão ou ... seria vítima daquelas afiadas unhas. Não que se precisasse de muito pra isso. Bastava ela acordar de mau humor que, com certeza, alguém levaria uns arranhões. Geralmente Sultão ou eu. A escolha não era por conta do tamanho do afeto que aquela gorducha tinha por nós, levava a primeira quem estivesse mais próximo.
          Dia da vacina. Meu deus!!!, que tortura. Primeiro - não deixar que ela percebesse que seria vacinada. Segundo - não deixá-la sair de casa, pois, com certeza ela pressentiria as agulhadas e, uma vez fora, só retornaria à noite, quando sabia já não estar a mercê do veterinário. 
          Com Sultão tudo era tranquilo, eu colocava a coleira em seu pescoço, firmava o contra a grade do canil (grade de arames finos que assustava qualquer um quanto a sua fragilidade diante do tamanho daquele cão ... mas era Sultão, sabia respeitar seus limites) e pronto, Dr. Carlos aplicava a vacina e recebia festa do ser tão educado e gracioso.
          Ora de vacinar a onça. Primeiro enrolar suas patas com grossa toalha, depois colocar a focinheira, segurá-la bem forte. Após aplicada a vacina, eu tinha que ser rápida, desenrolá-la da toalha ao mesmo tempo que me afastava pra trás. Pois se ela visse alguém pelo caminho, com certeza iria fatiá-lo. Ela saía correndo, desesperada e já encontrava a porta da cozinha aberta. Ninguém iria querer aquele ser enfurecido dentro de casa.
          Passava o resto do dia deitada no quintal, nos olhando com muita raiva. À noite, quando Sultão era solto novamente, ela se escondia atrás do pé de acerola e assim que ele passava pulava em suas pernas dando mordiscadas. Sultão só era capaz de rosnar pra Miuda quando ela resolvia investir em sua vasilha de ração, e mesmo assim, essa dava um pequeno passo e ficava sentada olhando-o.
          Eles se amavam, eram grandes companheiros.
          Aos treze anos, nosso velho cão começou com complicações, aos poucos foi perdendo a firmeza das patas traseiras e, como se soubesse, Miúda já não pulava mais nelas, pois ele não podia se esquivar como sempre fizera.
          As complicações se arrastaram pouco mais de um ano.
          Um dia cheguei em casa por volta das 22:00, ele estava deitado embaixo da goiabeira, como sempre gostava, dei-lhe boa noite, seu semblante era tranquilo. Pela manhã, minha mãe me acordou com lágrimas nos olhos. Sultão havia partido. Estava deitado no mesmo lugar onde, sem saber, eu me despedira. Tinha uma expressão serena.
          Naquele dia Miúda não comeu. Ficou no jardim da frente. À noitinha consegui leva-lá até onde estava sua comida. Deixou que eu a pegasse no colo sem fazer qualquer objeção, coisa rara, ela detestava que a pegassem no colo. Comeu um pouco.
          No dia seguinte não a vimos. Dois dias ... três dias se passaram e nada.
          Fiquei meses achando que estava ouvindo seu miado anunciando a volta. Mas era só minha vontade tomando voz. Miúda se foi. E foi pra junto de seu amigo. Os gatos têm essas atitudes. Difícil de se compreender. Mas ... era uma amizade inusitada e forte.
          Agora são duas estrelinhas. Uma que corre e saltita sem parar, a outra ... escarrapachada deixando bem claro que ali ... é ela quem manda.     
         
         

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Almas Desnudadas

Desnudamos um ao outro,
um pro outro.
Mas sempre haveremos
de nos despir.
Pois nossas almas inquietas,
irrequietas,
se vestem e revestem
num assopro,
num sussurro.
Nos despiremos a vida toda,
toda a vida,
um ao outro,
um pro outro. 

De repente ... Acontece!

Sorriso que não morreu
Espelho velando o belo
Respostas sem perguntas
Entremeios de uma vida
Nudez que se reveste
Dias que se alongam
Infinito que tem um ponto
Procissão de vela acesa
Interregno desreinado
Dessa dor que vai sarando
Anoitecer que beija a lua
Deslindados corpo e alma
Escrevendo sua história

... nada ...

Cala o teu silêncio mais uma vez.
Esconde tuas mãos
aleijadas de carinhos negados.
Pernas pesadas,
ombros caídos,
olhar pro umbigo.
Mete na concha o pouco que te restou.
Aprisiona-te na tua razão.
Vascular que não pulsa,
rio que já secou.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Amor dos E.T.s

Amor de ET é Entrega Total
é estarmos Enamorados Totalmente
é sermos apontados como Enganados Tolamente
é sentir-se: Eternamente Teu
é tornar-se um Estuprador de Travesseiros
em noites que não terminam
é dizer que ela é seu Eterno Tesouro
é fazer com que ela se diga
Embevecida de Tesão
é saudá-la com doce elogio:
Escritora Talentosíssima
é saber que somos Extra Tentadores
é saber que Estratos Terrestres
não nos são limites

Amor correspondido

Amor correspondido
Amor correspondência
Amor pintado em tela
De pincel digitado
Amor que não tem voz
gritando a existência
amor que falta a carne
Amor que falta a mão
exala, lambuza e chora
Amor que não tem hora
Que nunca envelhece
Amor que sempre espera
o fim da imensidão
Amor que só existe

sábado, 22 de outubro de 2011

Lágrimas Renovadas

Depois das densas lágrimas
caindo corrosivamente
sulcos em meu rosto
não deixando a dor
se fazer esquecida

Novas lágrimas chegam
gotas de orvalho
refrescando dias de glória
fazendo dos sulcos
rios
que correm desenfreados
adoçando a alma

Acróstico de Amor

Maio ... Junho
Amor
Infusão
Ode ... desordem
Namorado enamorado
Ardor ... torpor
Ufano coração
Traz leva
Adentra ... viaja ...

Meu Sobrinho Gigante

Davi nasceu grandão
Lindo ...
Branquinho
Enormes olhos acompanhando tudo
Logo começaram a chamá-lo: Gigante

Gigante foi a força que vi nascer em meu irmão
Gigante foi o tamanho do tempo
que ele arrumou pras fraldas e mamadeiras
Gigante foi o amor que ele descobriu
poder sentir por alguém
Gigante é o sorriso que se abre em seu rosto
quando olha pra Davi
Gigante foi em que vimos
meu irmão se transformar

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Amor de Maionauta

Se não acreditar em você,
me desconheço.
Se não acreditar que esse amor já existe,
farei de mim a mais amarga mentira.
Se não te disser que quero

e vou esperar,
estarei desacreditada do meu próprio eu.
Sei que já não me enxergo
sem que possa,

também,
te olhar.

Prece do Maionauta Apaixonado

Viajando:
até o dia seis de outubro
eram apenas duas letrinhas maiúsculas.
Agora,


V - dois caminhos (perdidos)
      que se convergem.
H - dois indivíduos
      unidos pelas mesmas
      (intensas) necessidades.

Rezando:
Senhor,
Tu que olhas pelos bêbados e criancinhas,
por favor,
coloca também na tua lista
os Maionautas Apaixonados.
Que muitas vezes também são
Poetas concurseiros.
Amém!

... e muito obrigada.

A Lojinha

          Aqui em casa, sempre gostamos de cozinhar, e sempre o fizemos muito bem. Nossos doces eram famosos entre familiares e amigos.
          A mãe se aposentou, a Bela cresceu e ...
          Um dia fui a cidade comprei um balcão frio, uma estufa e três joguinhos de mesa e quatro cadeiras. Passei também numa loja de divisórias e marquei com o senhor que no outro dia fosse em nossa casa pra dividir a enorme sala.
          A casa é grande e temos duas saídas pra varanda, o que foi perfeito, pois uma porta serviria ao que ainda seria nossa sala de estar e, agora, também de jantar; já a outra, seria a entrada da Lojinha. Como a chamávamos carinhosamente.
          Liguei pra mãe e disse: "Comprei tudo, dividi em três vezes e as primeiras prestações vencem no mês que vem (no caso, dezembro, a melhor época pra se tentar qualquer negócio numa cidade de veraneio)
          A mãe fez um longo silêncio. Nos despedimos.
          Chegando a casa, só me restou dizer: "Bem, mãe ... agora é fazer doce!!!"
          Assim começava a Lojinha.
         Precisávamos de mais uma pessoa. E a mim, à mãe e à Isabela se juntou Iva. Uma amiga de velha data, de quem um dia falarei mais especificamente. Uma verdadeira formiguinha, daquelas que acordam já tendo feito, pelo menos cem, das mil coisas que consegue fazer durante um dia. Era nosso chá de ânimo nos momentos mais exaustivos.
          Mas a equipe também contava com duas figuras masculinas. Meu irmão que, além de muito nos ajudar, também enfeitava o balcão com sua presença que nunca passou despercebida aos olhares das moças que aqui passaram (Rodolfo é bonitão e muito simpático!). E tinha o Rafa, filho da Iva. Esse sempre nos dava um pito por não colocarmos tudo milimetricamente distribuído. Só tinha um probleminha ... rs ... seu expediente terminava às nove, ou antes, quando seu corpinho, ainda de 7 anos, era vencido pelo sono e ele deitava no sofá e ali dormia até a hora que Iva o acordava e os levávamos pra casa.
         No lado direito da sala (tendo como referência estar de frente pra varanda) dispomos de maneira aconchegante: um movelzinho, onde guardávamos embalagens e outros do gênero, também onde ficava nossa máquina registradora (uma caixinha de sapatos cuidadosamente encapada); ao seu lado o balcão frio, enfeitado com lindas tortas, quindins e outras guloseimas; em cima ficava a estufa com as pizzas quadradas, que passaram a ser uma referência: "É aqui que vende a pizza quadrada?", e os deliciosos folhados; uma mesa com bolos pra café, assim chamávamos aqueles bolinhos simples, apenas recheados de pura fofura e o lugar dos refrigerantes: uma enorme caixa de isopor, pois foi o que a sobra do dinheiro nos permitiu. Ali ela esteve por dois verões, só no terceiro conseguimos comprar o freezer. Mas era divertido ter que comprar gelo dia sim dia não. Tudo foi divertido naqueles sete verões que se seguiram.
          Na varanda dispomos as três mesinhas com lindas cestinhas cheias de tempero e os porta-guardanapos e canudos. A varanda e o jardim eram atrações a parte, suas belas plantas, que eram delicadamente plantadas e cuidadas por minha mãe, deixavam a todos de boca aberta. Alguém sempre perguntava:  "São de verdade? Brilham tanto. Tem como arrumar uma mudinha?" Entre um doce e outro a mãe ainda tirava as tão desejadas mudinhas. Por pouco não abrimos, também, um horto.
          Por aqui passou muita gente boa. Fazíamos doces e amigos.
          Teve um casal que na primeira vez eram namorados, depois noivos, depois chegaram com as alianças em mãos trocadas, e depois ostentando uma linda barrigona.
          Tinha aquela criançada que chegava no carrinho e. .. de repente ... já pediam seu próprio brigadeiro sem usar apenas a pontinha do dedo. Pontinha essa que vivia adornando o vidro de nosso balcão.
          E tinham os mais crescidinhos que chegaram correndo e ... depois chegavam cheios de charme, aquele charme sem jeito e ainda desconhecido dos adolescentes e sentavam pra paquerar.
          A Senhora do Espírito Santo era muito sorridente. Assim que chegava na cidade vinha me avisar, pois adorava os suspiros que só eram feitos pra ela, o tempo não nos permitia mais que isso. E sua idade a permitia querer qualquer coisa. 
         Os pasteizinhos de ricota com espinafre esperavam a chegada de uma simpática mineira que era vegetariana.
          Tinha um Senhor que vinha elegantemente com sua bengala e sua simpática esposa. Ele adorava uma cervejinha. Aqui não vendíamos bebida alcoólica, mas, assim como a Senhora do Espírito Santo, o fato de ser um octogenário também lhe permitia tais exigências. Nunca faltavam as latinhas de skol no cantinho da caixa de isopor.
           Aí ... 
          A Bela cresceu mais um pouco e teve a Raquel, eu comecei a estudar pra concurso público e a Iva abriu sua própria Lojinha, onde vende uma costela e uns caldos... Hum ...!!!
          Rodolfo passou no concurso público e o Rafa, esse com certeza vai passar no vestibular.
          Mas a mãe não parou com os doces, ela e a Bela ainda os fazem por encomenda, e esses ainda fazem muito sucesso.
          Hoje em dia, quando estamos no portão, e é verão, sempre passa um velho amigo, nos acena e diz: "Poxa, e os doces? Que saudade!"
          Com a Lojinha, reformamos a casa, fizemos o telhado e adoçamos nossas e as vidas de muita gente.