Gato e borboletas

Gato e borboletas

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Lanterna dos afogados

...perdida no horizonte
deixei que as ondas me levassem

lá estava a lanterna dos afogados

e você me acolheu num abraço
secou-me com seu carinho
e eu recuperei o fôlego

mas ali não era meu lugar

com um sorriso no rosto
me disse estar salva
e na palma da mão assoprou-me
e eu voei desajeitada
um voo sem volta

Meu arco-íris



...não há pote de ouro no fim do arco-íris
talvez não haja um beijo de amor
talvez
nem fim tenha o arco-íris

talvez seja só tristeza de palhaço
ou
sorriso rasgado de criança
(pra quem sabe ver o mundo
de cabeça para baixo)

talvez seja o arco-íris
só uma lembrança colorida

terça-feira, 21 de junho de 2016

Meu menino


Conheci um menino
Perdido
ainda não sabia quem era
mas sabia ser digno
Carregava doçura no olhar
e muito amor no coração

Teve medo do caminho
não teve medo do caminhar
Rumou-se em passos firmes e largos

Conheço um homem
que na véstia branca
se encontrou
Mais
sabe ser digno
Carrega doçura no olhar
e sempre amor no coração


quinta-feira, 21 de abril de 2016

Uma pergunta



Outro dia me perguntava 
o que fiz com a minha inteligência
Olhei para um lado
Olhei para o outro
Não havia concreto, ferro ou lata
Respirei fundo e segui
Dia desses, novamente, a pergunta
O que fiz com a minha inteligência?
Respirei fundo e repliquei
Sobrevivi

Sem cabeceiras



Minha próxima mesa,
comprarei-a redonda
Não haverá cabeceiras
Não haverá lugar de destaque
Apenas sentaremos, comeremos,
beberemos
A conversa fluirá com sorrisos, risos
e gargalhadas
E brindaremos à vida!



Além do flerte



me dê um ósculo

pra que melhor eu te enxergue



Círculos



Círculos sempre foram importantes em minha vida.

Na casa da Vó havia, do lado de fora, num varandão, um toco de mais ou menos um metro e meio que ficava na horizontal nos servindo de assento. Ali, o Vô Mazinho colocava, na diagonal, uma cadeira onde, em frente, estaria o pilão em que seria batida a paçoca.
Numa época, cabíamos quatro no toco, com o passar do tempo, só três. Os outros sentavam-se no chão e, pronto, nosso círculo estava formado.
Algum tempo depois de assistirmos àquele Senhor moreno, de fartos bigodes e braços fortes no ir e vir do soquete, eis a paçoca. A melhor de toda a minha vida.

Nós e o Vô também tínhamos encontro marcado para moer cana. Também num círculo. Era uma manilha com suas bordar dispostas pra baixo e um lajeado usado como mesa. Em cima ficava o moedor manual e nós ao redor, mais uma vez vendo o Vó mexer seus braços fortes e transformar aqueles caules num dulcíssimo caldo.
Aqui em Arraial, aprendi a tomar caldo de cana com limão, lá em Barra não havia esse hábito. O Vô iria apreciar a mistura.

A casa da Vó era uma chácara num terreno acidentado. No segundo plano havia uma mangueira onde, próximo ao seu tronco, encontrava-se uma outra estrutura de cimento, como a que sustentava o moedor de cana. Ali, ela nos servia de messa para os nossos pique-niques. Colocávamos uma toalha, que a Vó Raquel já deixava separada para tal ocasião. Nosso farnel era composto de bolo (iguaria que sempre se fazia presente na cozinha da Vó), suco e todos aqueles doces que encontramos nos saquinhos de Cosme e Damião. Comprar os doces era uma festa. A Vó ficava do portão nos vendo atravessar uma ruazinha que, o único perigo existente era sermos atropelados por um carrinho de rolimã. Mas nos sentíamos importante, afinal, íamos, sós, comprar nossos doces.
A copa arredondada da árvore protegia nossas guloseimas do sol e, também em círculo, corríamos pelo terreiro com nossos velocípedes e bicicletas.

Um outro círculo que eu adorava frequentar era o formado por três sofás e a TV, onde eu e o Vô Tininho, cada um em seu sofá, ele sentado e eu deitada, assistíamos, no início, Clube do Bolinha, depois passou a ser o Cassino do Chacrinha (que eu gostava mais) e, por fim, Programa Raul Gil, esse eu nunca gostei. Mas continuava fazendo parte do círculo, pois a companhia do meu Avô era o que o tornava importante. Mulato elegante, alto, também ostentando fartos bigodes. Caía na risada, se divertia muito com esses programas. Depois jantava e ia pra sua casinha, lá no morro.

E não posso esquecer das grandes rodas quando levantávamos poeira no terreirão dançando nossa quadrilha.

Em muitas de minhas aulas propunha aos alunos que colocássemos as carteiras em círculo, assim não ficávamos de costas pra ninguém, assim podíamos ver e não só ouvir nossos colegas. Nos círculos ninguém fica na frente, ninguém fica atrás, não existem cabeceiras. Detesto cabeceiras... Mas isso são outros quinhentos... rs


quarta-feira, 20 de abril de 2016

Geminianos



Já reparou na representação do signo de gêmeos?

São dois

Mas não se completam, são completos

O geminiano não é alguém esperando por sua outra metade

O geminiano espera alguém tão completo quanto sua completude

Caminha sempre

E voa, pois tem grandes asas

Mas ele precisa do outro

Afinal, conversar é bom demais!



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Um menino assustado


Se libertou das amarras
e se viu perdido no mundo

Mundo grande
que parece engoli-lo

Das grandes asas
que descobriu ter
se fechou num abraço

Ergueu um muro alto
e por ele conversamos
jogando bilhetes 
enrolados em pedrinhas

É só isso que me permite

Tentar tocá-lo
é perdê-lo

Já posso prever o voo
pra longe
bem longe
onde possa
novamente
se sentir seguro


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Melindres Poéticos


Se as palavras vêm
que perto de nós esteja papel e pena
pois logo voam pra longe
nos jogam um beijo
não voltam mais

Palavra se faz éter
num simples piscar do desatento

Poesia é bichinho melindroso
se sente desprezada
se logo não a deitamos
no branco até então imaculado
da folha que é só sua



domingo, 10 de janeiro de 2016

Sertão


O pé do primeiro passo
mais um descompasso
esquerdo, direito
fincados ao chão

A mão que procura
as cotas
procura a resposta
de um abraço vão

A boca que engole seco
que cala a pergunta
e a cabeça se pende
sabendo ser não

O olho percorre ligeiro
enquanto o outro
se esconde do sol

O ronco que não é trovão
pingo de chuva
molhando esperança
é estômago vazio
querendo um pão

A terra se ergue rachada
mosaico sem dó
contando histórias
escritas de pó


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Beijos de Deus



... me olho
e já não me reconheço
sou um sopro
de um beijo jogado por Deus
da palma de sua mão esquerda
viajo até a face 
onde encontrar uma bochecha ao meu dispor
e Deus ...
continua sorrindo enquanto joga seus beijos



sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Único Lençol


o único lençol restante
é a tela branca
onde deito minhas palavras
e suplico

aqui te amo
nada me impede
entrego-me
toda
sempre

nenhuma carne 
há de me fazer esquecer

nenhuma cama mais
terá meu amor derramado

a boca pode pronunciar
quaisquer palavras
o vento sempre as levará

só a alma
saberá o segredo

segredo que grito
não queres me ouvir

mas quando puder chegar bem perto
cochicharei doce em teus ouvidos
e tu haverás de me sorrir


Eterno Amor


Sorvo tuas palavras
elixir alimentando a dor

E sei estar viva
pois ainda pensas em mim

A certeza de ser inteira
existe
e consiste na poesia que fazes

Palavras que saltam à veia
que fazem pulsar

Escorrem nas lágrimas salgadas
enxurrada que te levou pra longe

Choro que não engoli
e tu te afogaste

Antes de morrer
ainda te darei
um último sorriso


sábado, 10 de outubro de 2015

Mandala


quando a vida nos pede andarmos em círculo,

não passarmos inúmeras vezes pelo mesmo caminho

depende da capacidade do olhar diferente,

e, de repente, voltamos à estrada ...



Chapéu violeta



Coloquemos chapéus,
flores,
roupas coloridas;

saiamos na chuva de braços abertos;

entremos no mar, mesmo vestidos;

vivamos com alegria,
e com a alegria de sermos quem somos!


terça-feira, 6 de outubro de 2015

2008 - começo do amor sem adeus



Eu nunca te esquecerei.
É uma das dores de muitas
que ainda me fazem
perceber estar viva.

Só tu a conheces,
só tu sabes o quanto
ela me consome,
só tu podes abraça-la,
e nesse momento
torná-la felicidade.

Mas tu não vens.
A dor é o que ficou desse tempo.
E se foi isso que restou de nós,
que doa.
Fecho os olhos,
e encontro teu sorriso,
enquanto me acolhes num abraço.



Resposta de amor preso no tempo



Se fui quem realmente sou,
se minha essência desnuda se fez,
esse instante ficou preso
em alguns meses de 2008.

Não fui impenetrável,
não sou impenetrável,
tu bem sabes disso.

A ave e a serpente
indo além dos instintos,
uma descobre o que é o vento
acarinhando seu corpo, sua alma,
pensamentos e desejos;
a outra experimenta
fincar-se ao chão
tendo que sentir todo o percurso,
e descobre que o caminho é real.

O toque que não nos permitimos sentir
realmente mata,
mas o abraço feito de carne,
esse nos salva,
sempre.

De mãos dadas
podemos saltar de qualquer abismo.
Em mim, restou-me uma asa,
e sei que guardas a tua.


terça-feira, 1 de setembro de 2015

Sempre a Dança






plié
elevé

eu
a vida

eis
o pas de deux



Agora vermelho





tudo é azul
enquanto o cinzel
não rasga a pele
e esculpe
toda a dor
pintada de vermelho


Minha escuridão


Até mesmo na escuridão
melhor permanecer de olhos fechados

Queria saber como fechar os ouvidos
como silenciar o pensamento

Mas isso nem a morte me garante

Então continuo sentada no canto do quarto
joelhos encolhidos
braços ao redor
como se fosse essa
a única proteção possível

Pois mesmo sem abrir os olhos
sei que os fantasmas rondam

Eles sabem
não poder fazer nenhum mal a mim

Mas eu 
ainda duvido

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Bem (bens) maiores


Dignidade não tem cor
Caráter não tem religião
Princípios não têm sexo

Amor não tem cor
Respeito não tem religião
Responsabilidade não tem sexo

Amizade não tem cor
Felicidade não tem religião
Coragem não tem sexo

Antes de cor, religião e sexo
temos muito mais
somos muito mais
temos mais riquezas
somos bem (bens) maiores

domingo, 21 de junho de 2015

Meu Todo Indizível



Talvez o grande segredo é aceitarmos que somos um todo além do que podemos conceber.

Um todo que foge às paredes que conhecemos. Que não se encontra apenas nos caminhos que já percorremos e nos que dizemos não querer percorrer jamais.

Algo muito maior do que já experimentamos e do que não ousamos, sequer, pensar em experimentar.

Tudo que somos é algo desconhecido.

Nunca teremos tempo pra perceber talvez um terço. Bobagem ... um milésimo já será lucro.
Mas chegamos perto, bem perto, quando tentamos. Simplesmente, tentamos.

Quando abrimos os braços e nos jogamos.

Quando nos desprendemos das palavras. Elas criam amarras, jogam em nossas cabeças toneladas de regras incompreensíveis. E só depois percebemos que assim o são por serem, meramente, insensatas.

O indizível é o grande segredo. O que de maior nos pode ser sussurrado em cada canto do nosso corpo. Espaço que vai além do que podemos tocar ou ver. E nem por isso é metafísico. Nosso tato só não está acostumado a ele.

Esse todo pode estar contido num suspiro. Aquele que nem percebemos quando se manifesta.

Aquele que talvez só seja conhecido pelas borboletas.



sábado, 20 de junho de 2015

Sublimação


Eu corro
... sem rumo
... sem margens

Minhas lágrimas viram nuvens
voando a procura de pouso

Repouso em braços desconhecidos
no suor de um amor inventado

Solidifico tudo em que acredito

E volto a me derreter
nesse curso sem rumo
que apenas o ir me importa

Quando essas nuvens densas
me trarão você?

Quando o abraço
terá músculos e braços?

Quando o suor será salgado?

... e o amor
sublimado




quarta-feira, 17 de junho de 2015

Todo


Sempre me senti inteira.
Mesmo nos dias que o todo
não era bem tudo que gostaria.
Nunca fui um todo formado por duas metades.
Vai que uma se desprende!
Meu todo é formado
por nuanças que não se desgrudam.
Brigam entre si por vezes.
Mas sabem ter que conviver.
Não abro mão de nenhum pedaço.
Meu todo é tudo que tenho.
Tudo se embola,
me descabela,
me faz rir,
chorar.
Há dias que corro
mesmo sabendo não existir fuga.
Pelo menos me exercito.
Olho ...
e meu todo está lá.
Com aquele sorriso de canto de boca
que sempre me seduz.



terça-feira, 16 de junho de 2015

Droga essencial


a única droga que deveríamos experimentar
sempre que se manifesta
é a que possuímos na essência
onde tudo está
onde tudo se esconde quando não a reviramos
o torpor causado
e o deixar-se levar por ele
é o que mais nos abre os olhos
os olhos da alma
da vida que constantemente se ergue
em nós
para nós
fechemos os olhos
e deixemos a dança nos invadir
dançando de olhos fechados
é quando mais nos enxergamos
e melhor sentimos a música
e os passos saem perfeitos


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Um susto


Tem um poço fundo
que num momento
penso querer secar...
Talvez sem fundo
assim me parece em outro

Não sei se bebo os últimos goles
ou se estou num infinito cair

Mas você chega
como um susto
me inundando de respostas
me acolhendo 
em perguntas
que fazem as asas crescerem

E eu bebo do elixir
e voo sem medo



terça-feira, 19 de maio de 2015

Mariani


Hoje eu acordei
e me deram a notícia
que não tinha mais você
Que não tinha mais 
aquele sorriso largo
Aquela gargalhada
que invadia a alma da gente
e fazia tudo ficar melhor
Não tinha mais aqueles olhos grandes
brilhantes
que quando me olhavam
eu sabia existir amor
Hoje eu sei que já não dá mais
O tempo é curto
quando a saudade bate
Hoje eu aprendi 
que saudade tem pressa
e devemos abrir a porta de imediato

Azulejando


Sei que inconsciente
você foi azulejando meu coração
Quando dei por mim
já não era mais vermelho
Primeiro ficou roxo
que acredito ser a cor
da mais tórrida paixão
Depois foi tomado de azul
a cor que deixa meu corpo entregue

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Algum sentido


Há momentos
que pensar cansa
e não leva
a nenhum lugar
Talvez 
só sentir
tenha sentido
Ou 
nada faça sentido
e fechar os olhos
canse menos



sexta-feira, 15 de maio de 2015

Um Esclarecimento



Volúvel?
Não.
A partir do momento
que amar alguém
coloca em risco
meu amor próprio,
não é a mim
que vou amar menos,
não é a mim
que vou deixar de amar.


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Menino Preto, Preto Velho


O dia amanheceu e a  Mãe África chorou.

O menino preto,
preso ao bicho de madeira,
do seu ventre foi tirado.

Junto a sua dor
o menino levou também
suas lembranças, sua macumba
e sua fé.

O menino cresceu de corpo preso,
mas a alma sempre ritmada
nunca esqueceu que era livre das amarras.

A natureza era seu altar,
o batuque da macumba
guiava seus pés em agradecimento.

O menino se fez homem,
e um rabisco lhe devolveu a liberdade do corpo.

E livre o homem dançou e agradeceu
e fez viver a Mãe África
em cada ensinamento.

Ensinou a agradecer a vitória de cada dia,
ensinou a conquistar o amor em cada gesto,
a ser humilde sem baixar a cabeça
e a ser forte através do sorriso.

E num alguidar, junto às estrelas,
ofertar o alimento aos que
com sua mãe haviam ficado.

E um dia
o homem preto ficou velho,
se juntou às estrelas,
se juntou à Mãe África.

Os que ele aqui deixou,
de pés no terreiro
continuam dançando,
a macumba ritmando seus corações
e as saias rodando sob as velas do céu.

E Preto Velho, sentado,
de sorriso nos lábios,
abençoa seu povo:
agora preto, agora branco, amarelo,
mas de sangue sempre vermelho.


quarta-feira, 13 de maio de 2015

Na pele do pé da alma



eu juro amar ... 
urgente, sempre ... amor
longe não vai estar
ilha de todo azul
o amanhã?
não sei existir
o ontem ... deixei ir
restou-me o agora


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Pés



Que corram 
quando preciso
precisos
Que caminhem firmes
Que saibam parar
descansar
Que cravem
na decisão acertada
Que recuem
sem medo
Que diante do abismo
criem asas



quinta-feira, 7 de maio de 2015

Tempo .. tempo



"O tempo é o que nos resta,
e devemos confiar"
Ouço a frase
Perfeita
Não há como não concordar
Mas certos dias
a ansiedade insiste
em sentar-se ao meu lado
Ora consigo ignorá-la
ora dou-lhe uma cotovelada

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Loucura



Quando minha loucura se tornou consciente
os olhos não mais turvaram
Nitidamente
pude ver que o caminho eram vários
Os pés seguiram firme
tropeçando no compasso da música
que antes fora zumbido
O que parecia caos
eram obras de arte erguidas pela vida
E muitas levavam minha assinatura

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Organizando o nada


antes era tanto o que fazer
ninguém mandava parar
muitos castelos de areia
e todos
o vento levava
...
o dia amanhece de outra cor
preciso organizar o nada
o vento continua soprando
e só meu cabelo
despenteando

terça-feira, 28 de abril de 2015

Amarras Azuis


Que amarras são essas?
Azul que venda meus olhos
Vela o medo
E revela o desconhecido

Que amarras são essas?
Etéreos nós 
Que não deixo soltar
E solta ... corro ao encontro

Tecido que me cobre
E sem piedade, descobre
Deixando-me ao relento
No frio da saudade

Tecido azul ... ditando o tom
Do som abafado
De um beijo molhado, encharcado
Num corpo largado

sábado, 25 de abril de 2015

Infinito que me perturba

Hoje é aquele dia 
que não há luz no fim do túnel
Nem num túnel estou
Hoje é dia 
do corredor sem fim
sem começo
Na verdade
não é um corredor
é um caixote
Acordo
e já estou nele
Não há saída
mas também não tenho pra onde ir
...e nem quem queira entrar
É mais um momento de escuridão
que eu sei que passa
Mas isso não torna cada minuto
menos infinito
O que me faz não estrangular-me
é que sei ter fim esse infinito
que ora me perturba 

domingo, 19 de abril de 2015

Arte de Criança

A criança
de mãos lambuzadas de tinta
as deixa passear pela parede
despreocupada

Já faz arte

e já não é compreendida

Meu caminhar

Que correria é essa?
Talvez o mundo esteja acabando
desde que começou
Eternos recomeços
que não nos deixamos perceber
Continuo caminhando
de pés descalços
sentindo o caminho
Quem passa apressado 
já não me interessa

sábado, 18 de abril de 2015

Total liberdade

A liberdade
sempre nos parece ser
grandes asas
que nos permitimos
num determinado momento
Mas...
também pode ser
o estarmos presos
cônscios dessa decisão

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Impossível Diálogo


As frases se desencontram
Sentados de costas
cada um profere seu monólogo
Cada verdade impera
e mais longe se encontram
mesmo ali
sentados de costas
As frases
cobertas de verdades próprias
nunca serão um diálogo
E mais longe se encontrarão
Chegou a hora do silêncio
Não a da separação
pois nunca estiveram juntos


Bonsai


Sempre admirei essa arvorezinha
Mas dispensava-lhe dó
Só conseguia enxergar
os limites aos quais era submetida
Pequeno objeto de contemplação
Pequeno ser de vida moldada
para o simples deleite alheio
Pobre arvorezinha - seguia eu pensando

O tempo passou ...
Deitei novo olhar a minha vida

Hoje
quando olho pra um bonsai
e vejo aquele ser
ao qual
sem darmos por nós
já o reverenciamos
entendo toda a sua grandeza
em aceitar o rumo da vida
e
simplesmente
saber florear


Mergulhando

Não consigo viver no raso
nunca soube o que era isso
... mesmo sem me dar conta

Sempre mergulhei fundo
e a vida também ...
sempre me mergulhou bemmm fundo

A primeira sensação 
é de que vamos nos afogar
desespero total
a morte ali
sorrindo

Aí nos damos conta que é possível nadar
... mesmo sem saber pra onde

Mas temos que nadar
deve ser a única opção
pelo menos a única que concebi existir

Não entendo quem passa a vida boiando
... é ficar à deriva ...
e isso nos deveria ser proibido.


terça-feira, 7 de abril de 2015

Solitude

Vivia rodeada de gente
A vida era um transatlântico
E eu à deriva
Um dia o vento bateu forte
Caí 
sozinha
num bote
O mar me levou pra longe
Sozinha
tive que me fazer companhia
Ri
Chorei
Ignorei
Encarei
Falei, falei
Emudeci ...
... gargalhei
Quem ficou à deriva foi a solidão

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Com-passos

A vida escolhe a música
Eu danço
O ritmo novo faz desajeitar-me
Eu tento
Rodopio pro lado errado
Num forte puxão
Eu volto pro passo
Confundo direita com esquerda
Fico tonta
Nunca soube me deixar levar
O erro foi esse
(será?)
Compassos
E eu nos meus passos pro lado oposto
Tento deixar-me ir como a música manda
Como a vida quer

segunda-feira, 23 de março de 2015

Dia de chuva

Hoje os olhos acompanham o tempo
Lá fora chove
Ora chuviscos,
ora pingos grossos
Ora vem fraca,
ora quase inunda
Meus olhos estão marejados
Hoje a alma precisa de chuva
assim como as plantas lá fora
E que a enxurrada leve a tristeza

Dor de viver

Se doer significa estar viva
Se tentar,
mesmo com medo,
significa doer
Então,
que venha a dor
E, contudo,
há sorrisos,
risos,
até gargalhadas
Pois a vida segue
O caminho é longo
Mas há flores,
ocasos,
estrelas ...
E sempre
um dia pra amanhecer



domingo, 22 de março de 2015

Resposta a uma conversa azul


Significado de "expectativa" sf (lat exspectare+ivo)

1 Situação de quem espera uma probabilidade ou uma realização em tempo anunciado ou conhecido.


Espero que me ame tanto quanto eu te amo.
Menos que isso não merecemos.
Que seja nessa vida,
pois quero as lembranças de agora.


2 Esperança, baseada em supostos direitos, probabilidades ou promessas.

Esperança que minhas preces foram ouvidas.
Direito à felicidade ... e ...
direito de querer que seja com você.
Provável que aconteça?
Há sempre 50% de chance.
Promessas não ouvi, nossas bocas não foram imprudentes.
Já nossos olhos ...


3 Estado de quem espera um bem que se deseja e cuja realização se julga provável.

Esperar e desejar um bem
não me parece algo só meu.
Provável que se realize?
De dois, sou 50%

... ... ...

Expectativas...
Como não tê-las?
A mim, impossível
É combustível pro próximo passo
É início do próximo sorriso
Primeira lágrima
de uma enxurrada de saudade
É rever o próximo sonho
Talvez mudar o pé
de começar a nova caminhada
É fôlego pra nunca parar