Gato e borboletas

Gato e borboletas

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Vendas e Asas



                                                                                                           (gravura de Raphael Leonardo)

Não sei se fecho meus olhos
para não sentir
aquilo que vocês se recusam a ver
Ou se estou dormindo
esperando o pesadelo passar

Gritar não adianta
a venda também tapa os ouvidos
E vocês só querem falar
E cada palavra
me cai como fel

Mas o tecido é corroído pelo tempo
E mesmo de olhos fechados
já não vou precisar que enxerguem
ou que ouçam

Nesse tempo de casulo
num momento as asas brotam
e eu voo alto
sem vendas
sem amarras
com longas asas

... que a vida pudesse retroceder dez minutos

Num átimo,
a faca crava o coração
com precisão de mestre em anatomia
Ali morrem três

Deus!, faça voltar dez minutos

Corra menina ... corra

Corra até a praia,
grite o mais alto que puder,
arrebente a garganta
Deixe as ondas levarem toda essa angústia
E no movimento de volta lavarem seus pés
como um carinho

Corra e soque um saco de areia,
um "joão bobo"
Soque qualquer coisa
até que toda a sua dor chegue nas extremidades das mãos
e escorra por entre seus dedos
indo pelos bueiros da vida

Depois,
se largue ao chão
Vitruviano de da Vinci
Deixe que a respiração quase se vá
E ali reze
faça do teu silêncio a mais pura oração

A vida nunca retrocede

Menina sem rosto,
de joelhos me ponho e peço por ti 


sexta-feira, 20 de junho de 2014

Doce espera

Como consegue estar tão presente?
É só um travesseiro que abraço
e fico feliz
É só uma voz dizendo  - bom dia!
e o dia é bom
de verdade
Consigo sentir o gosto doce
desses olhos que não esqueci a cor
Um misto de sensações e emoções
me pegou numa dança cheia de rodopios
De repente ...
tudo parou
e se fez paz
Somente paz
E esperar - que pode ser angustiante -
é só mais um dia feliz


terça-feira, 3 de junho de 2014

Não se preocupe

Não se preocupe,amigo
nenhuma dor me aflige
apenas um pequeno incômodo
que
basta ser poeta
transformamos em dor dilacerante
Uma pequena farpa
e pronto
um punhal atravessa nosso peito
Que bom termos nossas boas e velhas amigas
as palavras
Exorcizamos fantasmas
ou
os criamos
quando a vida parece sem graça

domingo, 1 de junho de 2014

Doença sem cura

Você é,
terminantemente,
uma doença sem cura.
Não queria crer nisso
mas é o que me resta.
Um livro,
um filme,
um quadro ...
e me pego te procurando.
Pergunto
quantas vezes mais
lerei seus poemas,
olharei as mesmas fotos,
os artigos de revista ...
Talvez quando morrer ...
Assim me livro da doença?
Não.
Se morro viro fantasma.
E nem te assombrar
você há de me permitir. 



Atemporal

Por aqui passamos
Passeamos
Tudo no "seu" tempo
Raramente no nosso
O que vivemos
O que olhamos
O que tocamos
Tudo ficou
Ali

Cá num canto perdido
Ou num recanto 
Mas ficou
Levo dentro de mim tudo que a vida me fez sentir
Isso ... ainda não ficou
Mas um dia há de ficar
Quando comigo
Minhas memórias se forem
E um dia
Com aqueles
Que ... hão de ir
Mas enquanto respiramos
As boas lembranças
Dançam no tempo
Ignoram a existência dos ponteiros
E seguem nos resgatando
Nos amparando 
Próximo ao precipício
Nos abraçando
Quando no desespero
Nos fazendo lembrar
Que dez minutos valem mais que 10 anos
Que esse tempo feito de números
É só pra constar