Gato e borboletas

Gato e borboletas

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Vô Doce

          O vô Tininho fazia um doce de leite como nunca comi. Eu e todos que tiveram a sorte de provar divina iguaria.
          Era uma festa quando ouvíamos a buzina da Variant verde avisando que o Vô Doce havia chegado. Não poderia ter escolhido melhor apelido pr'aquele Senhor. Com o tempo fui percebendo que ele fazia jus à alcunha não só por conta do produto que vendia mas, meu avô era, realmente , doce.
          O doce de leite era feito naqueles belíssimos tachos de cobre. Tinha em tablete e  cremoso, que vinha num copinho plástico (tipo esses de cafezinho) com uma pazinha de madeira.
          A parada na casa da vó Rachel era certa (foi onde morei até meus sete anos). Ali ele nos abastecia com sua delícia, momento tão esperado por mim, pelo Dô e pelo Di.
          Também momento em que, sentados na cozinha, aquelas adoráveis pessoas - vô Tininho, vô Mazinho e vó Rachel - colocavam a conversa em dia. Eram muito amigos, se conheciam desde antes dos meus pais pensarem em se casar.
          Enquanto os velhos iniciavam o papo, a vó punha água pra ferver pra fazer um café fresquinho que, com certeza, seria acompanhado com uma deliciosa broa recém saída do forno.
          Aqueles dois tinham uma elegância que pouco vi e pouco vejo nos homens de hoje. Ambos morenos, ombros largos, postura impecável e dois ponposos bigodes ostentados em belíssimos rostos de atores de cinema.
          A vó também era muito bonita. Sempre sorridente não deixava nada a dever pr'aquelas Divas hollywoodianas.
          O encontro dos três era feito de risos, sorrisos, gargalhadas e muita voz alta.
          Com eles aprendi a ouvir fantásticas histórias.
          Com eles aprendi que amizade é algo muito valioso.
          Que envelhecer é gratificante quando os olhinhos dos netos brilham dizendo seus nomes.
          E que a morte nunca existe pr'aqueles que deixam adoráveis lembranças que adornam o coração de muita gente. Pois sempre havia alguém que (com muita cara de pau - eu sempre fui ciumenta) me pedia: "posso chamar seu avô de vô também?
          Sempre tive que dividir essas criaturas especiais com toda uma legião de amigos, pois eles eram adoráveis e irresistíveis.
          E ... não é qualquer um que tem um Vô Doce.  

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