Gato e borboletas

Gato e borboletas

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A Lojinha

          Aqui em casa, sempre gostamos de cozinhar, e sempre o fizemos muito bem. Nossos doces eram famosos entre familiares e amigos.
          A mãe se aposentou, a Bela cresceu e ...
          Um dia fui a cidade comprei um balcão frio, uma estufa e três joguinhos de mesa e quatro cadeiras. Passei também numa loja de divisórias e marquei com o senhor que no outro dia fosse em nossa casa pra dividir a enorme sala.
          A casa é grande e temos duas saídas pra varanda, o que foi perfeito, pois uma porta serviria ao que ainda seria nossa sala de estar e, agora, também de jantar; já a outra, seria a entrada da Lojinha. Como a chamávamos carinhosamente.
          Liguei pra mãe e disse: "Comprei tudo, dividi em três vezes e as primeiras prestações vencem no mês que vem (no caso, dezembro, a melhor época pra se tentar qualquer negócio numa cidade de veraneio)
          A mãe fez um longo silêncio. Nos despedimos.
          Chegando a casa, só me restou dizer: "Bem, mãe ... agora é fazer doce!!!"
          Assim começava a Lojinha.
         Precisávamos de mais uma pessoa. E a mim, à mãe e à Isabela se juntou Iva. Uma amiga de velha data, de quem um dia falarei mais especificamente. Uma verdadeira formiguinha, daquelas que acordam já tendo feito, pelo menos cem, das mil coisas que consegue fazer durante um dia. Era nosso chá de ânimo nos momentos mais exaustivos.
          Mas a equipe também contava com duas figuras masculinas. Meu irmão que, além de muito nos ajudar, também enfeitava o balcão com sua presença que nunca passou despercebida aos olhares das moças que aqui passaram (Rodolfo é bonitão e muito simpático!). E tinha o Rafa, filho da Iva. Esse sempre nos dava um pito por não colocarmos tudo milimetricamente distribuído. Só tinha um probleminha ... rs ... seu expediente terminava às nove, ou antes, quando seu corpinho, ainda de 7 anos, era vencido pelo sono e ele deitava no sofá e ali dormia até a hora que Iva o acordava e os levávamos pra casa.
         No lado direito da sala (tendo como referência estar de frente pra varanda) dispomos de maneira aconchegante: um movelzinho, onde guardávamos embalagens e outros do gênero, também onde ficava nossa máquina registradora (uma caixinha de sapatos cuidadosamente encapada); ao seu lado o balcão frio, enfeitado com lindas tortas, quindins e outras guloseimas; em cima ficava a estufa com as pizzas quadradas, que passaram a ser uma referência: "É aqui que vende a pizza quadrada?", e os deliciosos folhados; uma mesa com bolos pra café, assim chamávamos aqueles bolinhos simples, apenas recheados de pura fofura e o lugar dos refrigerantes: uma enorme caixa de isopor, pois foi o que a sobra do dinheiro nos permitiu. Ali ela esteve por dois verões, só no terceiro conseguimos comprar o freezer. Mas era divertido ter que comprar gelo dia sim dia não. Tudo foi divertido naqueles sete verões que se seguiram.
          Na varanda dispomos as três mesinhas com lindas cestinhas cheias de tempero e os porta-guardanapos e canudos. A varanda e o jardim eram atrações a parte, suas belas plantas, que eram delicadamente plantadas e cuidadas por minha mãe, deixavam a todos de boca aberta. Alguém sempre perguntava:  "São de verdade? Brilham tanto. Tem como arrumar uma mudinha?" Entre um doce e outro a mãe ainda tirava as tão desejadas mudinhas. Por pouco não abrimos, também, um horto.
          Por aqui passou muita gente boa. Fazíamos doces e amigos.
          Teve um casal que na primeira vez eram namorados, depois noivos, depois chegaram com as alianças em mãos trocadas, e depois ostentando uma linda barrigona.
          Tinha aquela criançada que chegava no carrinho e. .. de repente ... já pediam seu próprio brigadeiro sem usar apenas a pontinha do dedo. Pontinha essa que vivia adornando o vidro de nosso balcão.
          E tinham os mais crescidinhos que chegaram correndo e ... depois chegavam cheios de charme, aquele charme sem jeito e ainda desconhecido dos adolescentes e sentavam pra paquerar.
          A Senhora do Espírito Santo era muito sorridente. Assim que chegava na cidade vinha me avisar, pois adorava os suspiros que só eram feitos pra ela, o tempo não nos permitia mais que isso. E sua idade a permitia querer qualquer coisa. 
         Os pasteizinhos de ricota com espinafre esperavam a chegada de uma simpática mineira que era vegetariana.
          Tinha um Senhor que vinha elegantemente com sua bengala e sua simpática esposa. Ele adorava uma cervejinha. Aqui não vendíamos bebida alcoólica, mas, assim como a Senhora do Espírito Santo, o fato de ser um octogenário também lhe permitia tais exigências. Nunca faltavam as latinhas de skol no cantinho da caixa de isopor.
           Aí ... 
          A Bela cresceu mais um pouco e teve a Raquel, eu comecei a estudar pra concurso público e a Iva abriu sua própria Lojinha, onde vende uma costela e uns caldos... Hum ...!!!
          Rodolfo passou no concurso público e o Rafa, esse com certeza vai passar no vestibular.
          Mas a mãe não parou com os doces, ela e a Bela ainda os fazem por encomenda, e esses ainda fazem muito sucesso.
          Hoje em dia, quando estamos no portão, e é verão, sempre passa um velho amigo, nos acena e diz: "Poxa, e os doces? Que saudade!"
          Com a Lojinha, reformamos a casa, fizemos o telhado e adoçamos nossas e as vidas de muita gente.

2 comentários:

  1. Cheguei a comer a costela da Iva que por sinal muito boa!!

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  2. Minhas lágrimas foram de profunda alegria por fazer parte da retaguarda dessa bela história.
    Meus filhos cresceram saboreando esses doces.

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