terça-feira, 20 de setembro de 2011

Vou à praia - novembro/2009

Resolvi que este ano
Não participarei do “Concurso da Mais Perfeita Dona de Casa do Bairro”
Podem me desclassificar
Não me importo
Acordei tarde, nem as camas arrumei
Se tomaram café antes de sair, não sei
Sei que as toalhas estão molhadas, jogadas no banheiro
E lá ficarão
Vou à praia.
Espero que ninguém esteja com muita fome hoje
Não terei tempo de fazer almoço
Que comam sanduíches
Piso na areia e penso no tempo que perdi
Mas ...
Não perderei tempo com isso
Acho melhor pensar em comprar um biquíni novo
Isso sim, é mais importante
Na verdade não vou participar dos próximos concursos
Nem este ano, nem os outros
O litoral é grande
Tenho muitas praias pra caminhar e, ...
Fico tão indecisa pra escolher um biquíni
Isso leva tempo

Descascando cebolas - outubro/2009

As lágrimas brotam
Em vão, tento fazer que cessem
É impossível
Ele chega
Passa por mim
Abre a geladeira
Enche um copo d’água
Sai fazendo o seguinte comentário:
- Nossa, essa cebola está mesmo forte !!!
Eu descasco batatas ... que não fazem chorar
O copo d’água recebe mais atenção do que eu
Há muito já choro
Há muito ninguém percebe
Minha vida passou a ser um eterno descascar cebolas
Tudo tem a mesma cor
Tudo sempre igual
As panelas e o aspirador são extensão do meu corpo
A casa sempre brilha
E meu olhar já se apagou
Não sei mais me cuidar
Não sei mais quem sou
A única dança é com a vassoura
Que a cada passo zomba de mim sem piedade
Não tive tempo de aprender a dançar

Gaiatices na madrugada - julho/2009

Gaiatices na madrugada 
O sorriso não sai do rosto
As gargalhadas brotam
Flores de primavera
A idade se perde
Perde-se a hora
O tempo não existe
Números evaporam ...
É bom não termos limites

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Segunda carta ao Doutor M.

Você está sozinho, como sempre. E diz não se incomodar, eu entendo.
Tive que ouvir, há semanas, da minha terapeuta, que as pessoas são descartáveis pra mim.
Não me assustou tal colocação.
Até tentei argumentar, mas sei, e ela também soube, ter sido um ato de defesa diante do inesperado.
Será que te amei ou amei me ver num espelho?
Também tentam me consolar, não sei de quê.
Como se estar só fosse um castigo e, inadmissível uma opção.
Claro que sabemos uma opção que a vida nos leva a ter.
Mas que encaramos e abraçamos com ternura.
Com a mesma delicadeza e cuidado que requer um recém nascido.
Também querem que me case.
Você já passou por essa experiência e teve filhos. Mas eu não. E sou mulher.
Isso é uma agravante. Como pode uma mulher não querer casar e ter filhos?
E ainda viver em paz?
Não entendem que se pode ser visceral e mesmo assim, estar em paz.
Paz não é sinônimo de marasmo. Mas não usam dicionário.
Também vivo com meus livros e a água.
Mas essa é sempre fresca.
E quero viver. Sempre.
Me permito morrer apenas por cinco segundos.

domingo, 18 de setembro de 2011

Primeira carta ao Doutor M.





Você tirou a barba e deixou de lado aquela armação redonda, atrás das quais se escondia. 
Continua bonito, como achei desde a primeira vez.
Mas continua se escondendo, afinal foi assim que escolheu. (Eu acho)
É um direito seu, não posso fazer nada.
Não posso nem falar um oi.
Pensava um dia ter me amado.
Mas acho que fui apenas uma tentativa pra sair do seu silêncio e viver como nós - pobres mortais.
Talvez eu esteja sendo pretensiosa.
Não fui realmente nada. Fui descartável.
Mas a vida também é descartável.
Quase sempre descartada. 
Deixada, levada, sofrida, anestesiada.
E nada.
Não se manda uma gata dizer adeus a quem se ama.
Ah! A gata. Talvez a Lola tenha me amado.
Talvez fizesse festa se um dia me encontrasse.
Talvez você tenha me amado.
Talvez eu ainda não saiba o que dói menos.
Quando descobrir, talvez eu deixe de te amar.
Ou te ame a vida inteira.
Mendigando, nem que seja, migalhas virtuais.

Baratas no quarto

Não há baratas no canto do quarto.
Há muito se foram carregando as últimas migalhas.
Nunca pensei que sentiria falta de fétidos insetos.
Elas se foram, sem dizer tchau, sem deixar bilhete.
Nem as baratas deram uma explicação, se foram sem a menor compaixão.
Deve ter sito na madrugada.
Devem ter passado por cima do meu corpo jogado.
Seco, depois da última lágrima.
Será que me olharam com dó?
Ou me acharam uma boçal?
Indigna de qualquer manifestação.
O quarto é puro silêncio.
Me irrita saber que tanta paz pode existir.
E eu aqui desesperada, desfalecida, de quatro, tentando uma reação.
Despenco.
A força de que preciso me falta nesse momento, me falta há muito.
Uma inércia que não me permite sufocar-me.
Não tenho forças pra respirar.
Não tenho forças pra morrer.
Talvez seja só esperar.
Talvez ele volte.
Talvez as baratas.

Quero - outubro/2009

Quero que, tendo os olhos cerrados,
me enxergue com as mãos
Que entrelace meus sentidos aos seus
como trama que nunca corrói
Fios que se fazem um
Que reconheça meu perfume
perdida num jardim na mais doce primavera
Que mergulhado num pote de mel
sinta saudade do meu gosto
e o descreva com o brilho do olhar
Que meus sussurros acariciem sua pele
findados num leve beijo na nuca
Que rodopiemos numa só nota
Música que não cessa
Que me ame na inércia do momento
E que agarre minha mão
na hora certa de correr
Que faça minha alma derreter-se em gozo
e meu corpo vibrar com o seu pensamento
Que me enxergue no breu
vislumbrando cada detalhe
Que seja norte ...
... enquanto me perco

Doutor M. - abril/2009

            Assim que o avistei tive a certeza do reencontro. Um abraço desconsertado. Passei minha mão em seu rosto tocando a pele já conhecida.
            Enquanto esperávamos um táxi, aninhei-me em seu peito. O voo do pássaro, que ia de acordo com o soprar do vento, chegava ao fim. Sem rumo ... havia encontrado seu destino.
            A porta foi aberta. E lá estava eu, de volta ao lar. Tudo no devido lugar. O ambiente acolhedor de braços abertos a minha espera, o cheiro da saudade, o miado doce ... Caminhei até o quarto e, a cada passo, a casa tornava-se cada vez mais ... minha. Abraçando-me. E ele, com os olhos, fazendo o mesmo.
            Tudo que se passou naqueles cinco dias de eternidade, sem começo nem fim, foi um sonho, daqueles que nem o mais desvairado dos poetas consegue ousar.
            O beijo era do mais doce paladar. Me afoguei em sua saliva sem querer salvação. Seus braços foram feitos pra mim e mais nada. Aquele corpo de um metro e noventa era do meu tamanho. Nossas peles se faziam uma e tinha a certeza que aquele homem sempre estivera dentro de mim.
            Olhava aquele prato de tempero picante e tudo era perfeito: os legumes, a massa ... cada erva. Era um embolar de expectativa e certeza misturado aos ingredientes certos. Clarice sobre a mesa testemunhando cada gesto. Havia tudo que eu mais gostava. Tudo feito por aquelas mãos que ora haviam percorrido meu corpo como se ali sempre estivessem.
            Despertar naquela cama ... que era minha, ao lado daquele homem que era e sempre havia sido meu ...
            Dois meses depois - acordo. O mundo havia parado no começo de um suspiro. Como um corpo acabado de ser descongelado, desfaleço, caída ao chão, sem chão, sem ar... Boca seca ainda com o gosto da sua saliva. As recordações são como uma tela de Dali. Escorrem disforme rasgando a pele.
            A mim ... resta-me chorar. Um pranto que nunca imunda, pois se evapora no corpo ainda quente.

Nossas almas se embolam - novembro/2008

Nossas almas se embolam
As palavra que trocamos
é doce poesia que rompe os séculos
embalando as mais tenras paixões
Dizes não poder prever o futuro
Mas este,
são pedacinhos de presente
e os nossos
já estamos juntando
Num desespero
queremos a eternidade
E esta já existe
São pedras preciosas que os olhos derramam
E o maior prazer
é sabermos lapidá-las

Nossas almas se embolam
Somos passado, presente, futuro ...
Somos um só no entrelace dos dedos
Nos atiramos
na certeza dos braços que nos esperam
E ...
descobrimos que sempre estiveram lá
Vislumbramos a beleza do caminho
E o que pareceu ser feito de dolorosos obstáculos
vira éter diante do gozo

sábado, 17 de setembro de 2011

Solidão - agosto/2009

A solidão é tão grande
Que até as palavras se foram
Não aguentaram
Acho que tiveram medo de morrer
... secas
O peito também não dói
Até a dor esquivou-se de mim
Parece engraçado
Mas nem graça sinto
É um vazio ... vazio
Me procuro
Não me acho
Esqueci o que quero
Não sei mais como procurar
Me perco olhando um não-sei-o-quê
Percebo que não é nada
Pois as cores esvaíram-se ao meu olhar
Remexo em mim
Nada encontro
Casa depois da mudança
Alguns móveis velhos e feios que nem cobertos com um pano branco estão
Pouco importa ficarem empoeirados
Não serviam, pra quê servirão?
Nem os cupins os querem
Até o tempo se foi
O mundo parou sua caminhada
É um grande mar de inércia
E eu sem bóia
Ora resisto
Ora deixo-me afogar
Mas estou tão leve, pois nada restou dentro de mim,
Que flutuo e deixo essa onda de solidão me arrastar
Pra lá ... pra cá ... pra onde for ... pra onde der
Só sei que no momento meus pensamentos se foram
Minha vontade saiu correndo sem deixar bilhete
E eu me joguei no chão
Morta
Mas com hora certa pra ressuscitar