segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Rosa




Foto de José Edward Guedes.
(post de José Edward Guedes)


Tem  dias que ainda é botão

Momentos que desabrocha em puro charme

Segundos que um assopro a faz murchar

Ora rosa

Ora amarela

Mas sempre Rosa

Pétalas que caem renascendo do pesadelo

Espinhos sempre a postos

Cheiro bom de quem quer viver

Beber da água

Se colorir do sol

Rosa de muitas fases

Buquê de amante

Coroa de funeral

Cama de orvalho ao despertar do dia

Rosa esperando a primavera

Sorriso sempre guardado n'alma


Bons Ventos

Bons ventos trazem chuva fina
que acaricia as folhas
beija com cuidado cada flor
entranha a terra trazendo vida
matando a sede

Bons ventos trazem nomes desconhecidos
que se fazem conhecer
livros que precisam ser lidos
poetas que precisam ser sorvidos
poesia que precisa ser abraçada

Bons ventos levam raiva tentando achegar-se
decepção que não se esperava
dor que não deixamos doer
nomes que já até esquecemos
lugares que o mapa já apagou

Bons ventos levam tempestades pra longe
trazem abraços desconhecidos
sorrisos que só sentimos
cheiro de coisa boa
que ainda não sabemos bem o que é
trazem um "boa noite" que faz a noite ser


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Internet

Hoje venho até aqui pra te agradecer.

Eu sei, eu sei ... vivo te xingando.

Vivo dizendo que navegar nas suas águas é pedir pra se afogar, que essa nuvem computacional só serve pra trazer fortes tempestades, daquelas que só destroem.

Que toda essa parafernália necessária pra que essa nuvem negra aconteça só serve pra entulhar o mundo. Pura poluição.

Eu sei, eu sei ... pego pesado.

Mas hoje venho te agradecer.

Você tem sido ponte. Ponte de caminhos curtos, longos, ponte de encontros.

Tem me trazido abraços que não imaginava.

Tem matado a saudade que sinto de quem está do outro lado do oceano.

Claro que continuo convicta que verdadeiros abraços são feitos de carne. Mas esse entrelace apenas começa por aqui.

Hoje você é chuva de verão, que faz a gente sair correndo pra se deixar molhar. Que dá de beber às plantas. Que afaga o chão e faz subir aquele cheiro de terra molhada do quintal da infância.

Não, hoje não vou te xingar ... rs ... sei ser justa.

Só vim aqui pra te agradecer.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Amor (?)

Tanta música
tantos versos
tantos suspiros
tantas noites acordados
tantas palavras
e a definição não basta

Tanta lágrima
tanta preocupação
tanta culpa
tanto cuidado
tantos braços
e sempre nos faltam os abraços

Tantas provas
que não provam
tantos erros
em acertos
tantas idas
e vindas
sem vindas
tanto caminho e muito cansaço

Tanta espera
tanta falta
tantos soluços
e gargalhadas
tanta história
sem personagens
tanto luto
sem se ter vivido

Pra no fim descobrirmos
que Amor é só silêncio

Ao poeta José Edward Guedes

Poetisa? Não
Poeta
Poeta que não é feminino
nem masculino
Poeta que é tudo
que é todos
Basta ter alma
e todos a temos
Basta rasgá-la e escrever
e tudo é poesia
E assim nascem os versos
e assim corre a vida
Poesia com dor
poesia com alegria
desesperada
velada
chorada
gritada
mas sempre poesia
Poesia com as mãos
com os pés
poesia no olhar
Poesia no silêncio
guardada num peito
necessitando explodir

Vivendo ...

A dor é o cinzel que esculpe a alma
Mas só vale a pena deixar-se rasgar
se a obra for apreciada com um largo sorriso

A alma escreve nossas histórias
com os fios brancos e as rugas
que tão bem nos sabe colocar
Por que querer apagar essas histórias?

Nosso jardim sempre é regado
com as melhores lágrimas
Que começam doídas e,
quando deixamos seguir seu rumo,
é puro prazer

O poeta é tudo,
são todos,
é quem vive de verdade,
é quem acorda se espreguiçando já feliz

Hoje eu acordei amando, mais que nunca,
meus fios prateados,
minhas rugas,
minhas dores,
meu sorriso largo e ...
o resultado de cada lágrima

domingo, 16 de novembro de 2014

Tem isso e tem aquilo

Tem beijo que é só tesão
Tem beijo que é tesão
e prenúncio

Tem cheiro que o vento leva
Tem cheiro que impregna
a lembrança

Tem carne sem tempero
Tem carne que se tempera
no suor do outro

Tem gente que só molha os pés
Tem gente que mergulha fundo
escolhendo não se afogar

Dor sem sofrimento

A dor virá.
Sem dia certo,
mas virá.

Me disseram que sempre dói
Mas sofrer é uma opção.
Opção que não faço.

A dor vai encontrar
um sorriso de canto de boca,
um olhar de quem flutua.

Vai sentir-se deslocada,
procurar um canto,
vai ficar quietinha.



quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Voo sem medo não existe

Jogar a toalha,
sem segurar a ponta.

Jogar-se do abismo,
mesmo sem asas.

Se o voo é verdadeiro,
elas crescem ...

... sempre crescem.

Voo sem medo não existe.

Gente não nasce pássaro.

Mas nascem asas ...
onde nascem sonhos.





quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Insônia

O único barulho é o da chuva.
E mesmo assim
é quase silêncio.
Até a natureza ficou quieta.
Talvez queira me lembrar que já é hora de dormir.
E nem sei se quero sonhar.
Os olhos ainda não pesam.
Mas não tenho o que olhar.
A paz é mais branca que essa folha de papel.
Não há sono,
nem angústia,
nenhum desespero,
nem tristeza,
nem lágrimas.
Só a chuva molha.
E as flores agradecem.


Ou se vive em paz, ou ...

Ninguém gosta de sofrer.
Mas...
como escrever sem dor?!
Se faltar pena e papel ...
assim mesmo é possível.
Se faltar dor...
faltam palavras.
Poesia não é beijo na testa.
Poesia é ferida aberta no peito.
É angústia incessante.
São lágrimas derramadas
em folhas brancas.

Ou se vive em paz.
Ou se é poeta.

"Alla puttanesca"

Será a falta de palavras
a ferida se curando?

Se for ...

Preciso de um novo poema
lido em voz alta.
De uma noite inteira de conversa
deixando a garganta seca.
De gargalhadas sem precedentes.
De celulares que não tocam.
Filmes em preto e branco.
Violão ao chão.
Pelos de gato.
Alla puttanesca.
Clarice.

Não conto com a tua presença.
Mas necessito de todo o resto.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Acordo

Se acordasses comigo
apenas sentar e contemplar-te,
aceitaria de imediato.

Se,
mais tarde,
acordasses que poderia,
de leve,
te tocar,
de longe eu o faria.

Se o acordo se estendesse
a um leve e solitário beijo,
faria desse momento
todas as palavras
caladas até então.

E...
se diante de tantos acordos,
acordasse em teus braços,
terias entendido.

Eu selaria qualquer acordo
sem mudar uma vírgula,
sem exitar um suspiro.

E acordaria feliz em teus braços,
mesmo sabendo ser a última vez.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Opinião que não pediram



Não é o momento de terem um lugar
Seria um lugar de fuga
E o bom é que seja de descanso
Acredito na qualidade do material que estão juntando
Mas o terreno precisa ser limpo
Acredito que esse material está sendo bem guardado
Livre do que possa deteriorá-lo
Mas ...
alicerces fortes precisam de terreno limpo, preparado
E vocês bem sabem
Essa limpeza requer tempo
E esse tempo não depende de dois
Quando a casa puder começar "do início"
Aí sim, o lugar será de descanso
E não importarão as tempestades

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Vendas e Asas



                                                                                                           (gravura de Raphael Leonardo)

Não sei se fecho meus olhos
para não sentir
aquilo que vocês se recusam a ver
Ou se estou dormindo
esperando o pesadelo passar

Gritar não adianta
a venda também tapa os ouvidos
E vocês só querem falar
E cada palavra
me cai como fel

Mas o tecido é corroído pelo tempo
E mesmo de olhos fechados
já não vou precisar que enxerguem
ou que ouçam

Nesse tempo de casulo
num momento as asas brotam
e eu voo alto
sem vendas
sem amarras
com longas asas

... que a vida pudesse retroceder dez minutos

Num átimo,
a faca crava o coração
com precisão de mestre em anatomia
Ali morrem três

Deus!, faça voltar dez minutos

Corra menina ... corra

Corra até a praia,
grite o mais alto que puder,
arrebente a garganta
Deixe as ondas levarem toda essa angústia
E no movimento de volta lavarem seus pés
como um carinho

Corra e soque um saco de areia,
um "joão bobo"
Soque qualquer coisa
até que toda a sua dor chegue nas extremidades das mãos
e escorra por entre seus dedos
indo pelos bueiros da vida

Depois,
se largue ao chão
Vitruviano de da Vinci
Deixe que a respiração quase se vá
E ali reze
faça do teu silêncio a mais pura oração

A vida nunca retrocede

Menina sem rosto,
de joelhos me ponho e peço por ti 


sexta-feira, 20 de junho de 2014

Doce espera

Como consegue estar tão presente?
É só um travesseiro que abraço
e fico feliz
É só uma voz dizendo  - bom dia!
e o dia é bom
de verdade
Consigo sentir o gosto doce
desses olhos que não esqueci a cor
Um misto de sensações e emoções
me pegou numa dança cheia de rodopios
De repente ...
tudo parou
e se fez paz
Somente paz
E esperar - que pode ser angustiante -
é só mais um dia feliz


terça-feira, 3 de junho de 2014

Não se preocupe

Não se preocupe,amigo
nenhuma dor me aflige
apenas um pequeno incômodo
que
basta ser poeta
transformamos em dor dilacerante
Uma pequena farpa
e pronto
um punhal atravessa nosso peito
Que bom termos nossas boas e velhas amigas
as palavras
Exorcizamos fantasmas
ou
os criamos
quando a vida parece sem graça

domingo, 1 de junho de 2014

Doença sem cura

Você é,
terminantemente,
uma doença sem cura.
Não queria crer nisso
mas é o que me resta.
Um livro,
um filme,
um quadro ...
e me pego te procurando.
Pergunto
quantas vezes mais
lerei seus poemas,
olharei as mesmas fotos,
os artigos de revista ...
Talvez quando morrer ...
Assim me livro da doença?
Não.
Se morro viro fantasma.
E nem te assombrar
você há de me permitir. 



Atemporal

Por aqui passamos
Passeamos
Tudo no "seu" tempo
Raramente no nosso
O que vivemos
O que olhamos
O que tocamos
Tudo ficou
Ali
Lá
Cá num canto perdido
Ou num recanto 
Mas ficou
Levo dentro de mim tudo que a vida me fez sentir
Isso ... ainda não ficou
Mas um dia há de ficar
Quando comigo
Minhas memórias se forem
E um dia
Com aqueles
Que ... hão de ir
Mas enquanto respiramos
As boas lembranças
Dançam no tempo
Ignoram a existência dos ponteiros
E seguem nos resgatando
Nos amparando 
Próximo ao precipício
Nos abraçando
Quando no desespero
Nos fazendo lembrar
Que dez minutos valem mais que 10 anos
Que esse tempo feito de números
É só pra constar

quinta-feira, 8 de maio de 2014

apbp.com.br






















bocas se calam
a arte grita
voa pelos quatro cantos
tintas caminham nas telas
contando histórias coloridas
braços se fazem asas
de voos além do céu

Construção

o amontoado de pedras
os tijolos espalhados
deixam de ser obstáculos
e o caminho passa a existir
e o alicerce se faz firme
pronto pra receber
quantos andares
a história precisar construir

o telhado é de vidro
mas é pra deixar a luz entrar

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Dia de Nada

O compromisso de hoje
é não ter compromisso com o por vir
nem com o agora
É não ter culpa por não ter compromisso
e nem pelo que já se foi
É não sentir medo
por escolhas não feitas
e nem pelas erradas
É não querer caminhar, nem correr
sentar-se também é necessário
Hoje é dia de nada
Pra quando amanhã chegar
poder se esvaziar de tudo
não deixando poeira nos cantos

Asas que não voam

De tantas asas que tinha
acabou não voando
Se embolaram
... pesaram
E ele ficou inerte
dormindo num ninho de frustrações
Sem travesseiro, edredom
e sonhos

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Bichinho Esquisito

Palavra tem vontade própria
Vai e vem quando bem entende
Ora num rápido passeio
Ora arruma as malas
em dias e dias de ausência
Quando encharcada de emoção
se junta a outra
entrelaçando-se em versos
Quando tudo é calmaria
repousa na solidão
É bichinho esquisito
Quando cansada de tanta vida
corre, corre, perdendo o fôlego
Quando tudo parece tranquilo
se sente sem sentido
e se perde no vazio

domingo, 23 de junho de 2013

Domingo e Solidão

Esse dia deixa claro minha condição
Não tenho pra onde fugir
Não ficaram amigos de infância
Nem os que conheci na faculdade
Têm alguns anjos 
São mais que amigos
Que Deus mandou pra que eu não enlouquecesse
Eles estão perto
Mas não o suficiente
Eles têm vida própria
E eu ...
Ainda não aprendi a viver
Domingo é um dia de encontros
Eu só encontro comigo
E há vezes que eu não me basto
Tenho medo que essas vezes virem muitas
Sinto falta do que não houve
Sinto falta do que não acontece
Fico pensando o que me faltou aprender
É cada vez mais difícil sair
É cada vez mais difícil respirar
Fico pensando o que me resta
Já não caminho, me arrasto
Cinco minutos me cansam
E quantos muitos ainda me esperam
Mas já se foi metade desse dia
E eu nem sei como morrer

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Namorado Ideal

Uma amiga me perguntou o que eu esperava de uma relação (falávamos de namorado).

Ela sabe o quanto somos amigas, confidentes, cúmplices, o quanto respeitamos nossas divergências.

O quanto sentimos prazer nas horas e horas de conversa sobre filmes, livros, poesia, filosofia, música.

As noites jogando buraco, jogo das palavras (um jogo de tabuleiro muito interessante) ou, simplesmente rindo à toa.

E também sabe que tenho esse tipo de relação com mais duas ou três pessoas.

Bem ... eu disse que queria isso tudo que tenho com esses pouquíssimos amigos ... porém ... regado a beijos na boca e bom sexo ... rsrsrs

domingo, 9 de junho de 2013

Dias de Domingo

Ontem parecia domingo.

Depois que me dei conta de que era porque estávamos todos juntos desde que o Lucca (filho da minha irmã Isabela) nasceu.

Davi (filho do meu irmão Rodolfo)  amanheceu aqui, o que é uma alegria. Gigante já acorda rindo e fazendo muita bagunça.

Depois do café fui fazer o que as Tias fazem, joguei bola, brinquei de massinha, descemos pra olhar os jabutis. Depois subimos e a brincadeira continuou com aquele monte de carrinhos.

Daqui a pouco ouvimos aquela vozinha inconfundível: Davi, olha quem chegou!!!

Davi corre pra varanda e começa a pular de alegria gritando sem parar: Gogó, Aquel chegô!!! (traduzindo: Vovó, Raquel chegou!!!) Raquel é a filha mais velha da minha irmã Isabela.

Lucca chegou aninhadinho em seu bebê-conforto, empunhado pelo orgulhoso papai Sppencer. Isabela chegou mais devagar, afinal, pariu não tem nem 20 dias e, agora é que estamos respirando 100% tranquilos depois do susto que Lucca nos deu.

Esse nem quer saber de nada, chegou dormindo e assim ficou por um bom tempo.

Davi ainda não se conforma, o chama pra brincar e não obtém resposta: - Uquinha  piguixoso! (traduzindo: Luquinha preguiçoso!)

Mas o preguiçoso acorda quando a fome bate. Agarra com propriedade o peito de sua mãe, mama, mama e ... bem, depois do almoço nada melhor que um cochilo ... rs

Após a sesta Lucca resolve acordar pra conversarmos um pouquinho. Ele adora falar com suas coloridas meias e fica nos olhando com aquela conversa silenciosa cheia de caras e bocas que só os bebês sabem.

O dia passa com todos aqueles acontecimentos de uma casa repleta de filhos e netos: brinquedos por todos os cantos, muito falatório (e Lucca dormindo ...), as brigas entre primos (nada diferente das entre irmãos). Afinal, ainda há uma distância entre as brincadeiras de uma menina de quase 7 e um menino de 2. 

Mas ... se  um deles é chamado à atenção, aí a briga termina e é união total, como aconteceu nessa cena: Raquel não queria emprestar uma canetinha pra Davi alegando que ele ainda não tem idade pra isso. Ele prontamente agarrou-se ao objeto sem querer larga-lo de jeito nenhum. Minha irmã interveio: - Raquel, se não se comportar, vamos pra casa! Davi não ficou quieto. Correu até a Tia e disse, com aquele peitinho estufado de quando fica zangado: Não!!!

Problema resolvido, e a tarde correu com mais brincadeiras e algumas poucas desavenças ... rs

Na casa da minha mãe qualquer dia tem cara de domingo. Pois Dona Lídia está sempre lá com seu sorrisão, tem sempre um filho dizendo "bom dia!", a gargalhada doce de um neto e a certeza de que estaremos sempre juntos!

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Discurso Adulto

Porque deixamos pra trás a sabedoria de criança?
A simplicidade com que enxergam o mundo?
A facilidade de expressarem vontades e sentimentos?

Hoje ficamos dando voltas.
Quando seria tão fácil chegar e falar oi.
E continuar a conversa.

Nos revestimos de trejeitos.
Palavras tangenciadas quase veladas.
Falamos, falamos ... e nunca dizemos nada.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Adeus Goiabeira

Passei por lá
No lugar da casa
um amontoado de tijolos
Ainda se podia ver
as poucas folhas da goiabeira
Doeu o coração 
saber que a próxima seria ela

Passei por lá
Havia apenas o terreno
como há 30 anos
Nada dos tijolos ao chão
nada da goiabeira

Não tem mais lugar pros ninhos
Não tem mais goiaba doce
Não tem mais o galho 
grosso pro balanço
Não tem mais sombra
pra conversar

Não tem mais
Miúda dormindo em cima
Nem Sultão dormindo embaixo

E eu nem dei o último abraço...

Voar ...

... me deixe voar
longe
alto
desajeitada

... me deixe apenas sentir o vento
frio
quente
forte

... me deixe ir sem norte
pra lá
pra cá
pra ninguém

quero apenas 
abrir as asas
fechar os olhos

voar ...


(sem compromisso)

Incorremos no erro de pegarmos uma expressão e colocar sobre ela o peso de apenas um dos seus inúmeros significados. 

Nossa língua é riquíssima, chega a ser um pecado restringir o uso das palavras por conta dessa pobreza semântica.

Me perguntaram se eu aceitaria um convite pra "conversar (sem compromisso)". 

Impossível.

Achei esse significado bem propício:
"Compromisso: responsabilidade adquirida em virtude de uma afirmação verbal ou escrita, feita por nós mesmos."
- não necessariamente verbal ou escrita, firmamos nossos maiores compromissos em nossas silenciosas orações.

Se aceitar sair pra conversar ... bem ...

Estarei firmando um "compromisso" de estar pronta na hora certa.

Estarei comprometida com o fato de querer que o tempo que ela dure seja agradável.

Seja qual for o assunto que conversemos o meu compromisso será manter-me veraz. Até porque, esse é um compromisso que firmo comigo ao acordar, todos os dias.

Não tem como não me comprometer.

E o meu maior comprometimento é em ser feliz.

Por isso ... será impossível uma "conversa (sem compromisso)". 

Palavras

Não acredito nas palavras ditas a esmo
o vento as leva
Nem naquelas presas ao papel
pois podemos atear fogo
Creio na verdade
das palavras ditas no silêncio
de um entrelaçar de dedos
São sussurros carregados na lembrança

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Conselhos do Mar

você me olha
pernas levemente abertas
espalma a mão no chão
me mostrando onde quer que eu sente
aninho-me naquela imensidão
você me aninha em seus braços e pernas
descansa o queixo em meu ombro
beija meu rosto
e ali ficamos
ouvindo os conselhos do mar

Torneira Maldita

a goteira não para
eu não durmo
espero o cair de cada nota
parece uma eternidade
silêncio que me sufoca
chuva que não molha
boca seca
agonizando a água que cai

Mesma História

Será que lemos velhas histórias
porque não queremos surpresas?
Já sabemos o começo, o meio, o fim
As páginas estão amareladas
eu amadurecida
mas a história é a mesma
E o livro cheira a mofo

Verde Desencontro

nunca pude olhar fundo
esses olhos verdes
sempre passando ...
sempre no alto ...
sempre
de vez em quando
ontem
amanhã
depois
só daqui uns anos
não importa o tempo
sempre faço deles um mergulho
o último
num lago de água de coco
fresca
doce
como teus olhos verdes

domingo, 26 de maio de 2013

Poesia Caprichosa

... mais uma vez
as palavras fogem
escorregam
por entre meus dedos
se fazem turvas
em minha cabeça
peças que não se encaixam
sentimentos 
e
palavras
não sei se essas não me são suficientes
ou
se aqueles me são desconhecidos
melhor esperar
sei que minha poesia é
caprichosa
não chega quando eu quero
e sim
quando
Ela
necessita

sexta-feira, 8 de março de 2013

Meus votos

Faço votos de que a caminhada prossiga como começou, os dois, sempre juntos, decidindo tudo, vendo cada detalhe, escolhendo cor, bolo, enfeites, lembranças ...
Nunca vi noivo tão participativo!
A festa de casamento da minha irmã e meu (agora oficialmente) cunhado foi, desde o início, planejada pelos dois.
Geralmente vemos a noiva de um lado para o outro resolvendo tudo, a personagem principal. O noivo é o coadjuvante, dizendo sim às escolhas quando solicitado e, se possível, se esquivando de outras. Aqui foi diferente!
Quem me conhece sabe que não ligo muito pra casamentos. Se fui a dois ou três em 40 anos (não contei aqueles em que fui Dama, afinal, não tive escolha, mas foram poucos também, uns dois ou três) foi muito.
Sempre disse que só valeria a pena participar de tal cerimônia se percebesse que era sincera a vontade de estarem juntos pra sempre.
Sei que muita coisa pode acontecer. Mesmo que façamos o melhor existem os imprevistos, mas esses não podemos adivinhar.
O que faz com que duas pessoas estejam no altar é a certeza de quererem estar juntas pra sempre, não imagino de outra forma. Mas não foi isso que vi nos poucos casamentos que fui e mesmo em relacionamentos que acompanho.
Minha irmã sempre sonhou em se casar de maneira tradicional, igreja, festa, vestido e grinaldo. Foi exatamente desse jeito. 
Mas o que me deixou feliz foi perceber no olhar dos dois essa certeza, estarem juntos pra sempre. A igreja escolhida era pequena cheia de charme e muito romantismo, datada de 1503. O cenário não poderia ser mais perfeito.
Todos estavam muito emocionados, a felicidade dos noivos era contagiante. Tudo maravilhoso, como sempre achei que deveria ser quando se resolve dar tal passo.
Até fiquei com vontade de fazer uma festa também, só pra vocês terem ideia de como fiquei comovida. Todos os sentimentos ali eram muito verdadeiros. As palavras ditas um para o outro eram do fundo do coração.
Meus votos é que continuem a caminhada desse jeito, conversando, discutindo, chegando a um denominador comum. Fazer festa não é fácil, dá trabalho, existem os momentos de estresse, mas o resultado, quando fazemos tudo juntos, com amor e cumplicidade, é perfeito. Assim foi a festa de vocês e, acredito piamente que, assim será daqui pra frente.
Beijos! 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Dilema

...
no papel a prescrição
a caixa cheia ao alcance
desespero
covardia
a vida e seus dilemas
...

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Mais um "Feliz Natal"

Por que o Natal não é em julho?
Seria menos doloroso encarar lojas tão cheias num clima mais ameno.
Mas ...
Por que preciso fazer isso?
Preciso comprar presentes só pras crianças.
Elas não entenderiam tal ausência.
E curtem rasgar tanto papel.
Elas não têm culpa, nunca têm.
Talvez um dia entendam toda a falta de sentido.
Talvez um dia deixem de comprar.
Quem sabe ...
De qualquer maneira,
pra quem ainda entende o sentido destas palavras:
Feliz Natal!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Encruzilhada

e cá estou eu
parada
olho pro que passou
e sinto saudade
de como não foi
atrás de mim
as possibilidades
continuo de costas
não quero decidir
não sei como fazê-lo
melhor sentar um pouco
...
de costas
...
tenho medo de seguir
pela esquerda
e seguir com dúvida
sentir saudade
do que havia
do outro lado
e não vi
...
voltar não dá
...
nunca dá

Chuva

... o céu se fez cinza
chega pela esquerda
do outro lado
já intimidado
o azul se desfaz
os anjos tocam tambor
o som
ensurdecedor
assusta
fico esperando o próximo
mas eles parecem saber da espera
conseguem me assustar
a cada batida
entre o cinza
que
agora
é escuro
e pinta todo o céu
rajadas de prata
ao som dos tambores
vai dá pra lavar a alma
música
luz
o show promete
o cheiro de terra
já invade as narinas

... espero ...

... espero ...

me enganaram
os pingos foram tão poucos
tão pequenos
evaporaram
antes de tocarem o chão
os raios se foram
a chuva não caiu
ficou só o cinza
escuro

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Quatro paredes e uma escada

Eu e as quatro paredes
Elas me abraçam em dia frio
Abrem suas janelas aos 40º
Ouvem minhas lamentações
Ouvem meu silêncio
Não perguntam nada
Sabem que não gosto de respostas
Acomodam minha dor
Estão aprendendo a acolher a alegria
São brancas como monte de neve
Claridade de sol forte no olho
Me empurram escada a baixo
Batem a porta na minha bunda e dizem:
Vá Virginia, vá viver

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Fantasmas

Não sei por onde começar. Nem o livro, muito menos a vida. Essa nova vida que se desenha cria-me estranheza. Os fantasmas saíram debaixo da cama, sentaram-se à beira e conversam comigo. Tapo os ouvidos, mas eles falam ... falam ... ignoram que eu os ignoro. Na verdade é apenas uma tentativa em vão, pois quero ouvir o que tanto gritam, sussurram. Querem chamar minha atenção. Achei que ao saírem debaixo da cama iriam embora. Os veria saindo porta a fora e descendo a escada ... talvez voassem ... mas sairiam. Puro engano. Agora que são mais que vozes, parecem querer conversar olho no olho. Não sei como lidar com isso. Sinto medo. E não tenho medo de senti-lo. Deixo que invada todo meu ser. Quero saber qual é a sensação do medo consciente. Sentar e ... quase deleitá-lo. Talvez assim o conheça de verdade. Talvez perceba que ele não tem um porquê pra estar aqui. Dessa forma, quem sabe, eles partam.
Os fantasmas sussurram em meus ouvidos sem pudor. Pegam-me desprevenida sempre. Criam diálogo que desconheço, travo brigas imaginárias que me consomem. Talvez quem olhe a cena veja uma mulher sentada, quieta, com olhos estatelados. Deve ser assim que fico. Pois não reajo. Sinto que fico estática enquanto a mente, a alma, rodopiam. Só sei que, quando me dou conta, estou cansada, aí reajo, falo em voz alta pra que sumam. Que já os conheço, sei que são irreais. Mas ... Como podem ser irreais se me paralisam.
Eles são pedaços de mim, só pode ser isso. Nada é tão assustador a ponto de nos tirar de cena do que os lixos que não colocamos pra fora. E nessa decomposição ... todo aquele gás me sufoca. Só me resta a faxina. Não sei por onde começar. Por enquanto só movo o lixo de lugar, não sei como irei colocá-lo porta a fora. Mas já é um movimento. E os fantasmas se assustam. Sabem que cansei de ficar parada. Sabem não ter mais lugar na beira da minha cama.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Praia Grande

... o sol esquentando
areia fina nos pés
vento na cara
cabelos nos olhos
passos ...
cheiro do mar que se aproxima
água gelada
doendo nos pés
passos ...
mergulho
eletrizando o corpo
sangue correndo
vento quente
passos ...

Conversando no nº 1007, bloco I

O momento é agora
Mesmo que olhemos para trás
para frente
o momento acontece
E num piscar
o perdemos
O passado ... passou
Não o tornemos peso desnecessário
O futuro está ali
Deixe-o descansar tranquilo
Respire o agora
e ele será o futuro
Mas olhar fixo pra frente
é só angústia
Dance,
cante,
se descabele,
faça silêncio,
grite até enrouquecer
Mas faça
Faça agora
Faça hoje
Se arrependa até
Só não deixe a vida passar